O dito da vez


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A explosiva descoberta
Ainda me atordoa.
Estou cego e vejo.
Arranco os olhos e vejo

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Carlos Drummond de Andrad

29 de mai de 2008

Progresso!? (a todo custo)


Heróis?! Que que é isso Presidente? Alegria, alegria? "

Lula acha que pode ir ao inferno e voltar com pele, barba, cabelo e bigode, só porque Bush, que é da casa, o acompanha. Tendo andado por todo o país desde a Caravana da Cidadania (ainda lembra, Presidente??) Lula deve ter visto como é feita a colheita da cana, onde o primeiro rito para a abertura dos portais do inferno é a queimada do canavial, de onde, em meio às chamas e às toneladas de carbono, enxofre e gases bushianos lançadas na atmosfera, sai lá do meio uma horda de príncipes usineiros das trevas, que só têm feito crescer em número e em maldade.

"Segundo a Pastoral do Migrante, entre as safras 2004/2005 e 2005/2006 morreram 10 cortadores de cana na Região Canavieira de São Paulo. Eram trabalhadores jovens, com idades variando entre 24 e 50 anos;[...] Os atestados (de óbito) dizem apenas que morreram por parada cardíaca.

[...]entre as décadas de 50 e 80. Cresceu também a produtividade do trabalho no corte de cana, medida em toneladas de cana cortadas por dia por homem ocupado. Se na década de 60 a produtividade do trabalho era, em média, de 3 toneladas de cana por dia de trabalho, na década de 80 a produtividade média passa para 6 toneladas de cana por dia por homem ocupado e no final da década de 90 e início da presente década, atinge 12 toneladas de cana por dia.[...] (O peão é o mesmo, com o mesmo facão, mas é exigido dele 4 vezes mais toneladas de cana cortada por dia - nota minha.)

[...]Um trabalhador que corta hoje 12 toneladas de cana em média por dia de trabalho realiza as seguintes atividades no dia:

· Caminha 8.800 metros;

· Despende 366.300 golpes de podão;

· Carrega 12 toneladas de cana em montes de 15 kg em média cada um, portanto, ele faz 800 trajetos levando 15 Kg nos braços por uma distância de 1,5 a 3 metros;

· Faz aproximadamente 36.630 flexões de perna para golpear a cana;

· Perde, em média 8 litros de água por dia, por realizar toda esta atividade sob sol forte do interior de São Paulo, sob os efeitos da poeira, da fuligem expelida pela cana queimada, trajando uma indumentária que o protege, da cana, mas aumenta a temperatura corporal."
(Sombra?! Não há nem sombra de sombra num canavial queimado. Já ouviram a expressão "trabalhar de sol a sol" - pois é... Só que em cima do solo quente da queimada.Água fresca?! Duvido.)

O Professor diz ainda que o setor sucro-alcooleiro utiliza tratores e máquinas agrícolas de última geração, agricultura de precisão, controlada por geo-processamento via satélite etc., mas mantém relações de trabalho já combatidas e banidas do mundo desde o século XVIII e que os 10 que morreram são uma amostra insignificante do total que deve morrer todas as safras clandestinamente.

Qual é a fortuna que ganham os trabalhadores que empenham suas vidas diante dos portais do inferno? Em Ribeirão Preto, São Paulo (onde o valor deve ser maior que no nordeste, por exemplo) eles ganham R$400 por mês mais R$2,40 (dois reais e quarenta centavos) por TONELADA de cana cortada (e notem mais dois detalhes perversos: eles sequer presenciam a pesagem, que é feita na usina pelos que usam os tridentes, os mesmos que "não toleram" produções diárias menores que 10 toneladas - caso isso ocorra o trabalhador é demitido).

"O que sindicalistas e trabalhadores colocam é que a vida útil do cortador de cana é de 15 anos. Depois de 15 anos, se estiver vivo, é inválido. A gente não vê ninguém se aposentar como cortador de cana", afirmou um procurador do Ministério Público do Trabalho, aqui.

"Infeliz do país que precisa de heróis", principalmente os do tipo usineiros.

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JUSTIÇA

JUSTIÇA

Agora uma fabulazinha

Me falaram sobre uma floresta distante onde uma história triste aconteceu no tempo em que os pássaros falavam, os urubus bichos altivos mas sem dotes para o canto resolveram mesmo contra a natureza que havia de se tornar grandes cantores.
Abriram escolas e importaram professores, aprenderam


mi

sol

si
Encomendaram diplomas e combinaram provas entre si para escolher quais deles passariam a mandar nos demais a partir daí criaram concursos, inventaram títulos pomposos, cada urubuzinho aprendiz sonhava um dia se tornar um ilustre urubu titular afim de ser chamado por vossa excelência.
Passaram-se décadas arte que a patética harmonia dos urubus maestros foi abalada com a invasão da floresta por canários tagarelas, que faziam coro com periquitos festivos e serenatas com sabiás. Os velhos urubus encrespados entortaram o bico e convocaram canários e periquitos para um rigoroso inquérito:
cade os documentos de seus concursos?
Indagaram, e os pobres passarinhos se olharam assustados... Nunca haviam freqüentado escola de canto pois o canto nascera com eles.
Seu canto era tão natural que nunca se preocuparam em provar que sabiam cantar naturalmente cantavam
Não, não, não assim não pode, cantar sem os documentos devidos é um desrespeito a ordem, bradaram os urubus.
E em um nisoro expulsaram da floresta os inofensivos passarinhos que ousavam cantar sem alvarás...

Moral da história: em terra de urubus diplomados não se ouve os cantos dos sabiás