O dito da vez


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A explosiva descoberta
Ainda me atordoa.
Estou cego e vejo.
Arranco os olhos e vejo

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Carlos Drummond de Andrad

29 de dez de 2008

Massacre...



A paz regada a sangue!

DO GUETO DE VARSÓVIA AO GUETO DE GAZA

Em Abril de 1943 os judeus do Gueto de Varsóvia foram massacrados pela máquina militar do III Reich nazi. Em Dezembro de 2008 os palestinos do Gueto de Gaza são massacrados pela máquina militar do IV Reich nazi-sionista. Ambos os povos exerceram o seu direito inalienável à revolta contra a opressão.

É hipócrita e cínica a atitude do governo português a recomendar que cessem os ataques de ambos os lados. Com essa argumentação pretende-se comparar a resistência digna do povo palestino e a acção criminosa do invasor sionista que massacra a população civil e destrói a infraestrutura de Gaza, depois de sustentar durante meses um bloqueio total contra o seu povo.

Este genocídio só é possível porque o lobby judeu mundial concede-lhe o combustível necessário, porque os EUA dá cobertura política, economica e bélica ao agressor, porque a União Europeia lhe deu um sinal verde e porque grande parte da população israelense dá apoio à limpeza étnica promovida pelo governo nazi-sionista.

Só o levantamento generalizado no mundo árabe e a solidariedade internacional, com todo tipo de protestos por toda a parte, poderá deter essa acção criminosa. Neste momento é importante reiterar a solidariedade com o governo legítimo do Hamas e repudiar a posição cúmplice do actual presidente da Autoridade Nacional Palestina, sr. Mahmud Abbas. Este, apesar da carnificina em curso, optou por acusar o Hamas pelo que está a acontecer e de forma submissa procura negociar com os assassinos do seu povo.

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http://resistir.info/palestina/cppc_29dez08.html

27 de dez de 2008

O que o capitalismo vende?


O capitalismo vende segurança: como diz meu professor de geografia, a mídia sempre quer ver todo mundo com a “teoria do cagaço” debaixo do braço. A TV cospe sangue em você; faz com que você ache que qualquer pessoa minimamente mal vestida está olhando atravessado pra você, e que a cada esquina um seqüestrador está escolhendo uma vítima (e que vai ser você, é claro). Ela quer fazer você ficar tão angustiado que você vai querer comprar tudo que eles vendam como segurança, além de consumir mais comida e banalidades por causa da sua angústia. Afinal, pra onde as mulheres vão quando querem se distrair? SHOPPING, não é?

O capitalismo vende personalidade: As pessoas querem viver numa zona de segurança, algum lugar abstrato confortável, que está entre a normalidade e a personalidade exclusiva. Na verdade há duas motivações para as pessoas quererem se sentir “diferentes”. A primeira é a agonia da normalidade, e das duas é a “Menos ruim”. É quando alguém percebe que simplesmente se parece demais com “todo mundo” e com “estereótipos”, então tenta mudar e ganhar alguma coisa como uma “personalidade própria”. A outra motivação é que a sociedade em geral faz você acreditar que é normal ser diferente (em questão de personalidade), de forma que se você não é minimamente diferente, você não é normal - e aí algumas pessoas iriam à loucura se não se encaixassem nessa “normalidade”. A questão é que, por qualquer motivo que seja, você acredita que precisa ser diferente a qualquer custo, e antes esse fosse o problema. O problema é que é uma crença de superficialidade; as pessoas pra serem diferentes fazem algo no cabelo, compram roupas “diferentes” ou “que dizem mais” sobre elas, aprendem algumas expressões de determinado grupo social, e compram variados produtos que custam mais caro por causa do fator “exclusividade”. Um iPod já é caro, mas uma versão limitada, sei lá, autografada pelo U2 (uma vez já existiu uma assim) custa mais caro. E quem “se identifica” vai lá e compra. O capitalismo vende personalidade: pras pessoas, ser diferente é comprar a diferença.

O capitalismo vende utopias: Você acha que a anarquia é utopia? Utopia é achar que felicidade é casar, ter filhos, viver trabalhando que nem um condenado pra sobreviver e sobrar um dinheiro pra no fim da vida ficar sem fazer de nada numa casa de praia. Essa é a imagem ideal de muitas pessoas: quando é perguntado a elas sobre felicidade, ou elas respondem um amor, ou os filhos, ou uma velhice segura. Aqui está um estereótipo: pôr-do-sol. Praia. Crianças brincando em slow motion. Ondas calmas. Um idoso com sandálias chiques, óculos escuros impecáveis, apoiando os braços atrás da cabeça e deitando, curtindo o pôr-do-sol… Parece propaganda do Itaú, certo? Então. Todos os seus sonhos de felicidade são na verdade remédios pros seus medos. Medo e impossibilidade de ficar sozinho, medo instintivo e primitivo de não passar os genes adiante, e medo memético, que vem da insegurança social dos dias de hoje, de sofrer na velhice ou mesmo ficar pobre antes disso, etc. As pessoas não querem mais nada da vida, não ousam ir além, se contentam com o pouco que lhes aplaca as ansiedades - e é pior, pois se contentam em nem mesmo pensar sobre isso. Isso não é vida. Isso não é felicidade. Isso é utopia.

E, é claro, tem alguém lucrando com os casamentos, muita gente lucrando com filhos e com o trabalho, e muita gente lucrando com casas na praia.

E, acima de tudo, o capitalismo vende distração: Se não houvesse nada pra te distratir, mais pessoas pensariam que talvez a mídia manipula demais as informações, que talvez não é preciso muito pra ser diferente, e não é um grande objetivo de vida ser diferente - ou melhor, se encaixar no modelo padrão de “ser diferente” - e mais pessoas avaliaram o que desejam pras suas vidas. E assim as coisas mudariam. Mas como as pessoas não são tão sérias (e ainda bem que não são, sob certo ponto de vista!) elas gostam de uma diversãozinha. O problema é que não sabem usar com moderação. Transformam a religião, o pão e o circo em ópio pras mazelas silenciosas da existência.

E tem muita gente lucrando com isso.

Peterson Cekemp

24 de dez de 2008

então é natal?




Envolta em devaneio, a noite
Respirava o hálito sublime
De um acontecimento transcendente,
Após o qual jamais a Terra foi a mesma.
No humilde estábulo, longe da arrogância,
Da opressão, do fausto, vinha ao mundo
O próprio amor em homem encarnado.

Sua passagem nos campos do Oriente
Marcaria para sempre a humanidade:
Não mais a ameaça , o castigo, a punição,
Não mais dilúvios de um Deus vingativo,
Mas a suave e mútua solidariedade,
Que fazem do homem um ser realizado.

Pouco importa a forma, as fórmulas, os cultos,
Somente único foi seu mandamento:
“Que vos ameis uns aos outros, e que assim,
Como eu vos amei,
Vos ameis também uns aos outros.”

Nas amplas salas opulentas de mansões
Ressoam vivas, o tinir de taças,
Borbulha a alegria: é Natal!
Mas, não mui longe dali, o melancólico
Espetáculo da miséria tem lugar:
Famintos, mal vestidos, oprimidos,
Os filhos do operário se perguntam,
Sem entender o porquê do sofrimento:
Qual o motivo para festa e alegria?
Como comemorar se o companheiro
De correrias, na rua esburacada,
Vítima de uma bala perdida,
Foi para o céu tornar-se um querubim?

Natal… mas é possível
Comemorar em pompa o nascimento
De um Cristo que se mata todo dia
Em cada ato de intolerância,
De egoísmo cego e violência?
Que milenar, infinda hipocrisia
É esta do mundo ocidental,
A festejar com estrondo o Natal,
Se o amor cristão é uma palavra
Morta e sem sentido
Nos lábios daqueles cuja vida
Se faz em falsidade e autoritarismo?

Porém, a festa é válida e gostaríamos,
Neste Natal, despreocupadamente,
De festejar e enlevar-nos no momento
Mágico da noite fascinante.
Porém, queremos lembrar, caros amigos,
Que o Cristo encerra em si a esperança
De uma vida fraterna, livre, solidária,
De aconchego espontâneo e mútuo,
A enriquecer de cada um a existência;
Que na opressão e na miséria coletiva
Não é possível realizar-se esta vida.

Que o Natal seja para nós,
Isto sim, um dia de alerta,
Que realimente-nos o sonho da utopia,
Para lembrar que a felicidade,
Em cuja busca gastamos nossa vida,
Só é possível no calor da mútua doação
E que, para isso,
Cada um de nós é ferramenta indispensável
Na grande luta de transformação
Da sociedade em justo e consciente,
Solidário conviver de indivíduos
Em que na alma jamais falte franqueza,
Em cuja mesa jamais falte pão.

..

19 de dez de 2008

.De outro modo.

O anarquismo não se resume a ação de violência, porém essas ações são necessárias de acordo com o contexto político, cultural e social que por deveras oprime os homens e mulheres no decorrer dos tempos. Como anarquista minha preocupação não se limita apenas a ações de violência, abrange-se a informação que atualmente de forma imoral e moral molda gostos e desgostos de um povo que se fez e se faz cego perante a realidade em que se encontra.

O que queremos?

A resposta para essa pergunta pode ser variada de acordo com o ponto de vista de cada um, contudo o que à em comum no desejo de todos até inconscientemente, é a vontade de ser livre para viver uma vida digna, justa e humana, sem guerras e disputas por poder, onde a vontade do outro é alienada e manipulada pelo Estado, pela Igreja, pela Mídia e tantos outros poderes que se faz presente em nosso meio. Algo que salta aos olhos, mas que a maioria não consegue perceber, por que não quer e por que a os que não querem.

Se o que queremos é liberdade, temos que conquistá-la, porém a várias maneiras de se trilhar o caminho para o que desejamos tão complexos e variáveis como a sociedade em que vivemos. A informação é algo importante para abrir caminhos que há tempos estão bloqueados, essa informação deve almejar a formação de conceitos e atitudes outrora esquecidos para o bem estar de uma minoria que se julga capaz de decidir pela maioria, levando em consideração seu conforto econômico-egocêntrico.

Neste aspecto percebemos a importância de uma educação para liberdade, dando aos estudantes uma oportunidade de decidirem seu próprio caminho, sem amarras impostas pelo Estado através do currículo que hoje está implantado nas escolas, perpetuando o sistema capitalista e toda a exploração que o mesmo dispõe. A educação libertária é um dos meio que possibilita a quebra dessa “tradição”, para uma nova ordem social.

Paulo FREIRE:
“Não há nem jamais houve prática educativa em espaço-tempo nenhum de tal maneira neutra, comprometida apenas com idéias preponderantemente abstratas e intocáveis. Insistir nisso e convencer ou tentar convencer os incautos de que essa é a verdade é uma prática política indiscutível com que se pretende amaciar a possível rebeldia dos injustiçados. Tão política quanto à outra, a que não esconde, pelo contrário, proclama sua politicidade”.

A partir da compreensão da escola como espaço político, percebemos que a formação cognitiva e intelectual deve permitir a participação ativa dos que fazem à escola na sociedade em que vivem. Construindo uma ligação entre os valores e ações, entre escolhas e conseqüências. Tendo como preocupação dar oportunidade aos que estão a margem desta sociedade moldada por um sistema excludente, proporcionando autogestão, pela democratização da escola num sentido radical, isto é, envolvendo professores, alunos e funcionários nas decisões sobre os rumos da educação e consequentemente da sociedade que esses atores estão inseridos.

karina m.

15 de dez de 2008

Um ponto de vista...



A educação é naturalmente libertadora, onde também proporciona ao ser humano subsídios para a construção de seu “eu” social, político, cultural, etc. Está alienada ao homem “democraticamente”, por que negamos nossa realidade, a esquecemos, como se não a construíssemos! Percebemos então que, está negação nos leva ao questionamento sobre o porque não enxergar como vivemos e porque vivemos assim, nos levando a reflexão de alguns conceitos esquecidos aparentemente, como autogestão e liberdade.

Está “democracia amarrada” pelo Estado, não nos deixa viver efetivamente, moldando o ser humano a uma determinada forma de ser. Por isso a negação a realidade nos impede de transformá-la, é necessário entender toda está complexidade que nos cerca para vir-a conhecer como vivemos, assim poderá existir uma reflexão real, que constantemente nos promove a ação necessária para interagirmos com está realidade percebida.

Destruindo antigos conceitos e costumes, para criar novos conceitos e hábitos. Existindo de fato, dando jus a nossa potência de ser humano.

karina m.

12 de dez de 2008

Sólido - Gasoso

As intenções são muitas, mais como sempre existem opções em demasia, o que realmente importa em momentos cruciais como estes?
Tempos onde o que importa é o lucro. Lucrar é o grande negócio, vidas são resumidas a piões de um xadrez político instigante, pois se não fosse, nossa realidade seria outra qualquer, eu estaria a falar de flores não de guerra!
Mais o que temos aqui são “pessoas” que tem como desejo o poder, aquele máximo, onde palavras como humanidade, solidariedade, coletividade são feitas a ignorar, pois o bem é o próprio não de todos...
Logo, o que ocorre hoje, é uma revolta humana a não humanidade, onde a perdemos tentando encontrá-la, mas como sair das amarras e vendas?
Um amigo me disse, certa vez, "simplesmente existindo", sendo a história, a revolta, vivendo e não sobrevivendo em um mundo onde amos se instalam, fiquemos de pé.
km

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Link
Revolta, greve e ordem

10 de dez de 2008

Do berço ao pó




[Nas barricadas, nas ocupações da universidade, nas manifestações e nas assembléias mantemos viva a memória de Alexandros, mas também a memória de Michalis Kaltezas e de todos os companheiros que foram assassinados pelo Estado, fortalecendo a luta por um mundo sem amos e escravos, sem polícia, sem exércitos, sem cadeias e sem fronteiras.]

Imagens
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CMI
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Rede Libertária
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A-Inf.

8 de dez de 2008

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Prezados/as,
Na seqüência da polêmica com a Profa. Eunice Duhran, que qualificou o Curso de Pedagogia como "uma fábrica de diplomas", segue o meu texto. Local de publciação: também Jornal da Ciência/SPBPC, possivelmente na versão impressa.
Abraços,
Ivonaldo

EM DEFESA DO CURSO DE PEDAGOGIA


Ivonaldo Leite

Professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE)


Nos últimos dias, tem-se dado curso a um conjunto de afirmações a respeito do curso de pedagogia que são, no mínimo, instigantes ao debate. Refiro-me às reportagens com a Professora Eunice Duhran. A grande imprensa, como a Revista Veja, e mesmo órgãos de divulgação científica, como este JC, têm estampado manchetes brandindo que o curso de pedagogia não passa de uma "fábrica de maus professores" .

Que a precipitação na emissão de juízos de valor seja uma das marcas de um determinado tipo jornalismo, é, até certo ponto, compreensível, embora não aceitável. O sensacionalismo tem apelo comercial. Manchetes espetaculosas vendem bem. Todavia, nem de longe, tal postura é admissível em quem deve ter compromisso com a problematizaçã o analítica dos fenômenos. A análise social não pode ser refém de pautas jornalísticas – não obstante, cada vez mais, intelectuais (nalguns casos por vaidade, noutros nem tanto) orientem-se pela lógica dos holofotes e pelas diretrizes dos editoriais.

Ora, como diria Ariano Suassuna, não "saio a terreiro", em nome do curso de pedagogia, de "capa e espada", até porque, em princípio, sou oriundo do campo da teoria social, tendo aportado no contexto educativo-pedagó gico por via do doutoramento em ciências da educação. De resto, longe de mim atitudes que guardem semelhanças com posturas quixotescas. Se venho a público tratar do assunto em tela, é em decorrência da necessidade de se realizar um debate referenciado nos quadros da problematizaçã o analítica, orientado pelo recíproco movimento entre a instância lógica e a instância empírica, o que, por certo, é algo que não se coadune com a precipitação jornalística. Entendamo-nos.

À partida, como pressuposto, é de se apontar um equívoco na idéia segundo a qual o curso de pedagogia é "uma fábrica de maus professores" . "Embaralham- se as cartas", quer dizer, comete-se o conhecido erro de se misturar informações verdadeiras e informações falsas, para que estas últimas adquiriam a identidade das primeiras. Ou seja, que o curso de pedagogia tem desafios a enfrentar, é algo que não pode ser negado – no que, aliás, não está só, basta uma vista de olhos nas licenciaturas em geral para se verificar isso. Agora, o que não se pode é lhe atribuir problemas que não são de sua responsabilidade.

En passant, é possível realçar três debilidades analíticas no discurso que afirma ser o curso de pedagogia "uma fábrica de maus professores" : 1ª) apanha no mesmo nível questões que têm estatutos teóricos diferentes; 2ª) ignora as reconfigurações educativas contemporâneas; 3ª) passa do plano lógico-empírico para o ideológico.

No que concerne à primeira, por exemplo, só mesmo "forçando muito a barra" é que se pode meter num mesmo saco os desafios que o curso de pedagogia tem à sua frente e a idéia de "zerar as faculdades de educação", de par (veja-se só!) com a restrição da expansão da universidade pública e a defesa da concentração da pesquisa acadêmica apenas em algumas instituições/regiõ es. Num país em desenvolvimento, e com as desigualdades regionais e a extensão que o Brasil tem, este é um raciocínio "bastante paradigmático" a respeito da integração nacional. Convenhamos, há algum tempo, ao defender algo semelhante, no governo FHC, Bresser Pereira foi mais argumentativo, apesar de ter dito que "botar dinheiro em pesquisa no nordeste é como dar capim a gado".

No mais, cabe lembrar que as patranhas verificadas no ensino particular superior muito devem ao programa adotado pelo Ministro Paulo Renato (quando, aliás, a Professora Eunice Duhram exercia a Secretaria de Política Educacional do MEC), no sentido de se criar um mercado educacional. Disso resultou um crescimento desordenado da rede privada (com significativos efeitos sobre o curso de pedagogia), tendo instituições de ensino sido instaladas até em shoppings.

Em relação à segunda debilidade, é preciso desconhecer bastante as reconfigurações educativo-escolares contemporâneas para então se limitar a incidência do trabalho docente unicamente à aplicação de conhecimentos, ao ensino em sentido meramente instrumental – ou mesmo pôr "debaixo do tapete" as dimensões de sociabilidade pressupostas pela educação escolar. Francamente. A escola de hoje não é a escola que alguns imaginam, geralmente fotografada por seus "retrovisores mentais", espelhando uma escola pública que era freqüentada por uma minoria, a escola da antiga classe média, como bem disse Bernstein. A escola atual é a escola de massas. As classes populares, enfim, alcançaram-na, como parte da conquista da sua cidadania. É cada vez mais difícil cumprir um dos antigos lemas da pedagogia: "ensinar a muitos como se fosse a um só". Isto porque os muitos agora são "multidões", e o sistema educativo não está preparado para recebê-las. É por aqui que se encontra a entrada analítica para serem explicados fenômenos atuais como a indisciplina, a violência e, claro, os problemas de aprendizagem, que fazem com que estudantes cheguem à universidade sem uma base que lhes permita atender os requisitos do ensino universitário. Portanto, a suposta deficiência do curso de pedagogia, formando "maus professores" , está intensamente relacionada ao ensino de base que os seus estudantes tiveram. Há de se reter ainda que, nos de hoje, não raramente, o ingresso em determinados cursos é menos por opção vocacional e mais em função da obtenção de um diploma do ensino superior. Isto por razões as mais diversas. Assim, é de se imaginar os impactos que tal fato tem no percurso de segmentos dos estudantes, no que toca ao seu empenho para apreenderem uma formação sólida.

Por outro lado, no dia-a-dia das escolas, não podem ser desconsideradas ainda as remodelações contemporâneas envolvendo a socialização primária e secundária, assim como os perfis sócio-familiares. Num cenário como este, ater-se unicamente ao cognitivo-instrumen tal, desprezando o sócio-cognitivo (o que significa pôr de parte as contribuições de disciplinas como sociologia, história e filosofia), é, na melhor das hipóteses, um despropósito.

Last but not least, referindo-se à passagem do plano lógico-empírico para o ideológico, a terceira debilidade enviesa o discurso da "pedagogia como fábrica de diplomas", situando-o num âmbito em que os fatos cedem lugar as opiniões ideo-políticas. Convenhamos, sob a rubrica de corporativismo, atribuir aos professores e às organizações docentes a culpabilidade pelas deficiências na educação, é um non sens. No cotidiano escolar, professores e professoras são vítimas, como os alunos, dos problemas do sistema educacional brasileiro. Salas superlotadas, precárias condições de trabalho e a sobrecarga decorrente da ocupação em mais de uma escola constituem uma amostra dos percalços vividos. Casos pontuais de descompromisso e de corporativismo sindical não abonam a emissão de juízos generalizados, apanhando as partes como se elas fossem o todo. Se, no entanto, mesmo assim se procede, é porque o terreno em que o analista social se move deixou de ser o dos dados empíricos, com ele adentrando-se no universo da ideologia que, como se sabe, no seu significado hard, apreende e representa a realidade de forma invertida.

Os desafios do curso de pedagogia colocam-se em outro patamar. Não será com abordagens que se enviesam à partida e nem com manchetes espetaculosas que eles hão de ser superados. Por exemplo, é necessário que, no Brasil, (1) seja convencionado um entendimento do que é a identidade do pedagogo e os contextos da sua atuação; (2) que seja travado um debate argumentado sobre o local da formação de professores (definitivamente na universidade? Em estruturas independentes/ específicas, como em outros países? O curso de pedagogia manter-se-ia na universidade com outras características, com foco na investigação, gestão e outras dimensões da educação?); (3) que seja equacionada a relação da pedagogia com as ciências da educação, visto que estas constituem, no exterior, um curso à parte (inexistente no Brasil), resultante das abordagens da sociologia, história, economia, filosofia, antropologia, psicologia, etc. votadas à educação, tendo-se que, no país, elas são apreendidas desconhecendo- se esse seu caráter basilar – o que tem significativas implicações teórico-práticas.

É preciso, portanto, pesquisa disciplinada e imaginação analítica para tratar dos desafios no campo dos estudos pedagógicos. Não as encontraremos em manchetes que surfam em reportagens ideo-precipitadas e que, de forma estigmatizada, generalizam ilações sem a devida fundamentação.

4 de dez de 2008

2 de dez de 2008

Uma visão ingênua da pratica educativa é vê-la como prática neutra, a serviço de idéias abstratas. A impossibilidade de ser neutro ou apolítico é que exige do educador uma ética: o que me move a ser ético é saber que a educação é política. Respeitar os educandos e não mentir para eles dizendo que estudar não tem nada a ver com o que se passa no mundo lá fora.

Paulo Freire

JUSTIÇA

JUSTIÇA

Agora uma fabulazinha

Me falaram sobre uma floresta distante onde uma história triste aconteceu no tempo em que os pássaros falavam, os urubus bichos altivos mas sem dotes para o canto resolveram mesmo contra a natureza que havia de se tornar grandes cantores.
Abriram escolas e importaram professores, aprenderam


mi

sol

si
Encomendaram diplomas e combinaram provas entre si para escolher quais deles passariam a mandar nos demais a partir daí criaram concursos, inventaram títulos pomposos, cada urubuzinho aprendiz sonhava um dia se tornar um ilustre urubu titular afim de ser chamado por vossa excelência.
Passaram-se décadas arte que a patética harmonia dos urubus maestros foi abalada com a invasão da floresta por canários tagarelas, que faziam coro com periquitos festivos e serenatas com sabiás. Os velhos urubus encrespados entortaram o bico e convocaram canários e periquitos para um rigoroso inquérito:
cade os documentos de seus concursos?
Indagaram, e os pobres passarinhos se olharam assustados... Nunca haviam freqüentado escola de canto pois o canto nascera com eles.
Seu canto era tão natural que nunca se preocuparam em provar que sabiam cantar naturalmente cantavam
Não, não, não assim não pode, cantar sem os documentos devidos é um desrespeito a ordem, bradaram os urubus.
E em um nisoro expulsaram da floresta os inofensivos passarinhos que ousavam cantar sem alvarás...

Moral da história: em terra de urubus diplomados não se ouve os cantos dos sabiás