O dito da vez


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A explosiva descoberta
Ainda me atordoa.
Estou cego e vejo.
Arranco os olhos e vejo

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Carlos Drummond de Andrad

8 de dez de 2008

!


Prezados/as,
Na seqüência da polêmica com a Profa. Eunice Duhran, que qualificou o Curso de Pedagogia como "uma fábrica de diplomas", segue o meu texto. Local de publciação: também Jornal da Ciência/SPBPC, possivelmente na versão impressa.
Abraços,
Ivonaldo

EM DEFESA DO CURSO DE PEDAGOGIA


Ivonaldo Leite

Professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE)


Nos últimos dias, tem-se dado curso a um conjunto de afirmações a respeito do curso de pedagogia que são, no mínimo, instigantes ao debate. Refiro-me às reportagens com a Professora Eunice Duhran. A grande imprensa, como a Revista Veja, e mesmo órgãos de divulgação científica, como este JC, têm estampado manchetes brandindo que o curso de pedagogia não passa de uma "fábrica de maus professores" .

Que a precipitação na emissão de juízos de valor seja uma das marcas de um determinado tipo jornalismo, é, até certo ponto, compreensível, embora não aceitável. O sensacionalismo tem apelo comercial. Manchetes espetaculosas vendem bem. Todavia, nem de longe, tal postura é admissível em quem deve ter compromisso com a problematizaçã o analítica dos fenômenos. A análise social não pode ser refém de pautas jornalísticas – não obstante, cada vez mais, intelectuais (nalguns casos por vaidade, noutros nem tanto) orientem-se pela lógica dos holofotes e pelas diretrizes dos editoriais.

Ora, como diria Ariano Suassuna, não "saio a terreiro", em nome do curso de pedagogia, de "capa e espada", até porque, em princípio, sou oriundo do campo da teoria social, tendo aportado no contexto educativo-pedagó gico por via do doutoramento em ciências da educação. De resto, longe de mim atitudes que guardem semelhanças com posturas quixotescas. Se venho a público tratar do assunto em tela, é em decorrência da necessidade de se realizar um debate referenciado nos quadros da problematizaçã o analítica, orientado pelo recíproco movimento entre a instância lógica e a instância empírica, o que, por certo, é algo que não se coadune com a precipitação jornalística. Entendamo-nos.

À partida, como pressuposto, é de se apontar um equívoco na idéia segundo a qual o curso de pedagogia é "uma fábrica de maus professores" . "Embaralham- se as cartas", quer dizer, comete-se o conhecido erro de se misturar informações verdadeiras e informações falsas, para que estas últimas adquiriam a identidade das primeiras. Ou seja, que o curso de pedagogia tem desafios a enfrentar, é algo que não pode ser negado – no que, aliás, não está só, basta uma vista de olhos nas licenciaturas em geral para se verificar isso. Agora, o que não se pode é lhe atribuir problemas que não são de sua responsabilidade.

En passant, é possível realçar três debilidades analíticas no discurso que afirma ser o curso de pedagogia "uma fábrica de maus professores" : 1ª) apanha no mesmo nível questões que têm estatutos teóricos diferentes; 2ª) ignora as reconfigurações educativas contemporâneas; 3ª) passa do plano lógico-empírico para o ideológico.

No que concerne à primeira, por exemplo, só mesmo "forçando muito a barra" é que se pode meter num mesmo saco os desafios que o curso de pedagogia tem à sua frente e a idéia de "zerar as faculdades de educação", de par (veja-se só!) com a restrição da expansão da universidade pública e a defesa da concentração da pesquisa acadêmica apenas em algumas instituições/regiõ es. Num país em desenvolvimento, e com as desigualdades regionais e a extensão que o Brasil tem, este é um raciocínio "bastante paradigmático" a respeito da integração nacional. Convenhamos, há algum tempo, ao defender algo semelhante, no governo FHC, Bresser Pereira foi mais argumentativo, apesar de ter dito que "botar dinheiro em pesquisa no nordeste é como dar capim a gado".

No mais, cabe lembrar que as patranhas verificadas no ensino particular superior muito devem ao programa adotado pelo Ministro Paulo Renato (quando, aliás, a Professora Eunice Duhram exercia a Secretaria de Política Educacional do MEC), no sentido de se criar um mercado educacional. Disso resultou um crescimento desordenado da rede privada (com significativos efeitos sobre o curso de pedagogia), tendo instituições de ensino sido instaladas até em shoppings.

Em relação à segunda debilidade, é preciso desconhecer bastante as reconfigurações educativo-escolares contemporâneas para então se limitar a incidência do trabalho docente unicamente à aplicação de conhecimentos, ao ensino em sentido meramente instrumental – ou mesmo pôr "debaixo do tapete" as dimensões de sociabilidade pressupostas pela educação escolar. Francamente. A escola de hoje não é a escola que alguns imaginam, geralmente fotografada por seus "retrovisores mentais", espelhando uma escola pública que era freqüentada por uma minoria, a escola da antiga classe média, como bem disse Bernstein. A escola atual é a escola de massas. As classes populares, enfim, alcançaram-na, como parte da conquista da sua cidadania. É cada vez mais difícil cumprir um dos antigos lemas da pedagogia: "ensinar a muitos como se fosse a um só". Isto porque os muitos agora são "multidões", e o sistema educativo não está preparado para recebê-las. É por aqui que se encontra a entrada analítica para serem explicados fenômenos atuais como a indisciplina, a violência e, claro, os problemas de aprendizagem, que fazem com que estudantes cheguem à universidade sem uma base que lhes permita atender os requisitos do ensino universitário. Portanto, a suposta deficiência do curso de pedagogia, formando "maus professores" , está intensamente relacionada ao ensino de base que os seus estudantes tiveram. Há de se reter ainda que, nos de hoje, não raramente, o ingresso em determinados cursos é menos por opção vocacional e mais em função da obtenção de um diploma do ensino superior. Isto por razões as mais diversas. Assim, é de se imaginar os impactos que tal fato tem no percurso de segmentos dos estudantes, no que toca ao seu empenho para apreenderem uma formação sólida.

Por outro lado, no dia-a-dia das escolas, não podem ser desconsideradas ainda as remodelações contemporâneas envolvendo a socialização primária e secundária, assim como os perfis sócio-familiares. Num cenário como este, ater-se unicamente ao cognitivo-instrumen tal, desprezando o sócio-cognitivo (o que significa pôr de parte as contribuições de disciplinas como sociologia, história e filosofia), é, na melhor das hipóteses, um despropósito.

Last but not least, referindo-se à passagem do plano lógico-empírico para o ideológico, a terceira debilidade enviesa o discurso da "pedagogia como fábrica de diplomas", situando-o num âmbito em que os fatos cedem lugar as opiniões ideo-políticas. Convenhamos, sob a rubrica de corporativismo, atribuir aos professores e às organizações docentes a culpabilidade pelas deficiências na educação, é um non sens. No cotidiano escolar, professores e professoras são vítimas, como os alunos, dos problemas do sistema educacional brasileiro. Salas superlotadas, precárias condições de trabalho e a sobrecarga decorrente da ocupação em mais de uma escola constituem uma amostra dos percalços vividos. Casos pontuais de descompromisso e de corporativismo sindical não abonam a emissão de juízos generalizados, apanhando as partes como se elas fossem o todo. Se, no entanto, mesmo assim se procede, é porque o terreno em que o analista social se move deixou de ser o dos dados empíricos, com ele adentrando-se no universo da ideologia que, como se sabe, no seu significado hard, apreende e representa a realidade de forma invertida.

Os desafios do curso de pedagogia colocam-se em outro patamar. Não será com abordagens que se enviesam à partida e nem com manchetes espetaculosas que eles hão de ser superados. Por exemplo, é necessário que, no Brasil, (1) seja convencionado um entendimento do que é a identidade do pedagogo e os contextos da sua atuação; (2) que seja travado um debate argumentado sobre o local da formação de professores (definitivamente na universidade? Em estruturas independentes/ específicas, como em outros países? O curso de pedagogia manter-se-ia na universidade com outras características, com foco na investigação, gestão e outras dimensões da educação?); (3) que seja equacionada a relação da pedagogia com as ciências da educação, visto que estas constituem, no exterior, um curso à parte (inexistente no Brasil), resultante das abordagens da sociologia, história, economia, filosofia, antropologia, psicologia, etc. votadas à educação, tendo-se que, no país, elas são apreendidas desconhecendo- se esse seu caráter basilar – o que tem significativas implicações teórico-práticas.

É preciso, portanto, pesquisa disciplinada e imaginação analítica para tratar dos desafios no campo dos estudos pedagógicos. Não as encontraremos em manchetes que surfam em reportagens ideo-precipitadas e que, de forma estigmatizada, generalizam ilações sem a devida fundamentação.

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JUSTIÇA

JUSTIÇA

Agora uma fabulazinha

Me falaram sobre uma floresta distante onde uma história triste aconteceu no tempo em que os pássaros falavam, os urubus bichos altivos mas sem dotes para o canto resolveram mesmo contra a natureza que havia de se tornar grandes cantores.
Abriram escolas e importaram professores, aprenderam


mi

sol

si
Encomendaram diplomas e combinaram provas entre si para escolher quais deles passariam a mandar nos demais a partir daí criaram concursos, inventaram títulos pomposos, cada urubuzinho aprendiz sonhava um dia se tornar um ilustre urubu titular afim de ser chamado por vossa excelência.
Passaram-se décadas arte que a patética harmonia dos urubus maestros foi abalada com a invasão da floresta por canários tagarelas, que faziam coro com periquitos festivos e serenatas com sabiás. Os velhos urubus encrespados entortaram o bico e convocaram canários e periquitos para um rigoroso inquérito:
cade os documentos de seus concursos?
Indagaram, e os pobres passarinhos se olharam assustados... Nunca haviam freqüentado escola de canto pois o canto nascera com eles.
Seu canto era tão natural que nunca se preocuparam em provar que sabiam cantar naturalmente cantavam
Não, não, não assim não pode, cantar sem os documentos devidos é um desrespeito a ordem, bradaram os urubus.
E em um nisoro expulsaram da floresta os inofensivos passarinhos que ousavam cantar sem alvarás...

Moral da história: em terra de urubus diplomados não se ouve os cantos dos sabiás