O dito da vez


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A explosiva descoberta
Ainda me atordoa.
Estou cego e vejo.
Arranco os olhos e vejo

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Carlos Drummond de Andrad

24 de dez de 2008

então é natal?




Envolta em devaneio, a noite
Respirava o hálito sublime
De um acontecimento transcendente,
Após o qual jamais a Terra foi a mesma.
No humilde estábulo, longe da arrogância,
Da opressão, do fausto, vinha ao mundo
O próprio amor em homem encarnado.

Sua passagem nos campos do Oriente
Marcaria para sempre a humanidade:
Não mais a ameaça , o castigo, a punição,
Não mais dilúvios de um Deus vingativo,
Mas a suave e mútua solidariedade,
Que fazem do homem um ser realizado.

Pouco importa a forma, as fórmulas, os cultos,
Somente único foi seu mandamento:
“Que vos ameis uns aos outros, e que assim,
Como eu vos amei,
Vos ameis também uns aos outros.”

Nas amplas salas opulentas de mansões
Ressoam vivas, o tinir de taças,
Borbulha a alegria: é Natal!
Mas, não mui longe dali, o melancólico
Espetáculo da miséria tem lugar:
Famintos, mal vestidos, oprimidos,
Os filhos do operário se perguntam,
Sem entender o porquê do sofrimento:
Qual o motivo para festa e alegria?
Como comemorar se o companheiro
De correrias, na rua esburacada,
Vítima de uma bala perdida,
Foi para o céu tornar-se um querubim?

Natal… mas é possível
Comemorar em pompa o nascimento
De um Cristo que se mata todo dia
Em cada ato de intolerância,
De egoísmo cego e violência?
Que milenar, infinda hipocrisia
É esta do mundo ocidental,
A festejar com estrondo o Natal,
Se o amor cristão é uma palavra
Morta e sem sentido
Nos lábios daqueles cuja vida
Se faz em falsidade e autoritarismo?

Porém, a festa é válida e gostaríamos,
Neste Natal, despreocupadamente,
De festejar e enlevar-nos no momento
Mágico da noite fascinante.
Porém, queremos lembrar, caros amigos,
Que o Cristo encerra em si a esperança
De uma vida fraterna, livre, solidária,
De aconchego espontâneo e mútuo,
A enriquecer de cada um a existência;
Que na opressão e na miséria coletiva
Não é possível realizar-se esta vida.

Que o Natal seja para nós,
Isto sim, um dia de alerta,
Que realimente-nos o sonho da utopia,
Para lembrar que a felicidade,
Em cuja busca gastamos nossa vida,
Só é possível no calor da mútua doação
E que, para isso,
Cada um de nós é ferramenta indispensável
Na grande luta de transformação
Da sociedade em justo e consciente,
Solidário conviver de indivíduos
Em que na alma jamais falte franqueza,
Em cuja mesa jamais falte pão.

..

Um comentário:

BêbÉT/Ocica's disse...

fico em Devaneios moça...

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JUSTIÇA

JUSTIÇA

Agora uma fabulazinha

Me falaram sobre uma floresta distante onde uma história triste aconteceu no tempo em que os pássaros falavam, os urubus bichos altivos mas sem dotes para o canto resolveram mesmo contra a natureza que havia de se tornar grandes cantores.
Abriram escolas e importaram professores, aprenderam


mi

sol

si
Encomendaram diplomas e combinaram provas entre si para escolher quais deles passariam a mandar nos demais a partir daí criaram concursos, inventaram títulos pomposos, cada urubuzinho aprendiz sonhava um dia se tornar um ilustre urubu titular afim de ser chamado por vossa excelência.
Passaram-se décadas arte que a patética harmonia dos urubus maestros foi abalada com a invasão da floresta por canários tagarelas, que faziam coro com periquitos festivos e serenatas com sabiás. Os velhos urubus encrespados entortaram o bico e convocaram canários e periquitos para um rigoroso inquérito:
cade os documentos de seus concursos?
Indagaram, e os pobres passarinhos se olharam assustados... Nunca haviam freqüentado escola de canto pois o canto nascera com eles.
Seu canto era tão natural que nunca se preocuparam em provar que sabiam cantar naturalmente cantavam
Não, não, não assim não pode, cantar sem os documentos devidos é um desrespeito a ordem, bradaram os urubus.
E em um nisoro expulsaram da floresta os inofensivos passarinhos que ousavam cantar sem alvarás...

Moral da história: em terra de urubus diplomados não se ouve os cantos dos sabiás