O dito da vez


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A explosiva descoberta
Ainda me atordoa.
Estou cego e vejo.
Arranco os olhos e vejo

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Carlos Drummond de Andrad

27 de dez de 2008

O que o capitalismo vende?


O capitalismo vende segurança: como diz meu professor de geografia, a mídia sempre quer ver todo mundo com a “teoria do cagaço” debaixo do braço. A TV cospe sangue em você; faz com que você ache que qualquer pessoa minimamente mal vestida está olhando atravessado pra você, e que a cada esquina um seqüestrador está escolhendo uma vítima (e que vai ser você, é claro). Ela quer fazer você ficar tão angustiado que você vai querer comprar tudo que eles vendam como segurança, além de consumir mais comida e banalidades por causa da sua angústia. Afinal, pra onde as mulheres vão quando querem se distrair? SHOPPING, não é?

O capitalismo vende personalidade: As pessoas querem viver numa zona de segurança, algum lugar abstrato confortável, que está entre a normalidade e a personalidade exclusiva. Na verdade há duas motivações para as pessoas quererem se sentir “diferentes”. A primeira é a agonia da normalidade, e das duas é a “Menos ruim”. É quando alguém percebe que simplesmente se parece demais com “todo mundo” e com “estereótipos”, então tenta mudar e ganhar alguma coisa como uma “personalidade própria”. A outra motivação é que a sociedade em geral faz você acreditar que é normal ser diferente (em questão de personalidade), de forma que se você não é minimamente diferente, você não é normal - e aí algumas pessoas iriam à loucura se não se encaixassem nessa “normalidade”. A questão é que, por qualquer motivo que seja, você acredita que precisa ser diferente a qualquer custo, e antes esse fosse o problema. O problema é que é uma crença de superficialidade; as pessoas pra serem diferentes fazem algo no cabelo, compram roupas “diferentes” ou “que dizem mais” sobre elas, aprendem algumas expressões de determinado grupo social, e compram variados produtos que custam mais caro por causa do fator “exclusividade”. Um iPod já é caro, mas uma versão limitada, sei lá, autografada pelo U2 (uma vez já existiu uma assim) custa mais caro. E quem “se identifica” vai lá e compra. O capitalismo vende personalidade: pras pessoas, ser diferente é comprar a diferença.

O capitalismo vende utopias: Você acha que a anarquia é utopia? Utopia é achar que felicidade é casar, ter filhos, viver trabalhando que nem um condenado pra sobreviver e sobrar um dinheiro pra no fim da vida ficar sem fazer de nada numa casa de praia. Essa é a imagem ideal de muitas pessoas: quando é perguntado a elas sobre felicidade, ou elas respondem um amor, ou os filhos, ou uma velhice segura. Aqui está um estereótipo: pôr-do-sol. Praia. Crianças brincando em slow motion. Ondas calmas. Um idoso com sandálias chiques, óculos escuros impecáveis, apoiando os braços atrás da cabeça e deitando, curtindo o pôr-do-sol… Parece propaganda do Itaú, certo? Então. Todos os seus sonhos de felicidade são na verdade remédios pros seus medos. Medo e impossibilidade de ficar sozinho, medo instintivo e primitivo de não passar os genes adiante, e medo memético, que vem da insegurança social dos dias de hoje, de sofrer na velhice ou mesmo ficar pobre antes disso, etc. As pessoas não querem mais nada da vida, não ousam ir além, se contentam com o pouco que lhes aplaca as ansiedades - e é pior, pois se contentam em nem mesmo pensar sobre isso. Isso não é vida. Isso não é felicidade. Isso é utopia.

E, é claro, tem alguém lucrando com os casamentos, muita gente lucrando com filhos e com o trabalho, e muita gente lucrando com casas na praia.

E, acima de tudo, o capitalismo vende distração: Se não houvesse nada pra te distratir, mais pessoas pensariam que talvez a mídia manipula demais as informações, que talvez não é preciso muito pra ser diferente, e não é um grande objetivo de vida ser diferente - ou melhor, se encaixar no modelo padrão de “ser diferente” - e mais pessoas avaliaram o que desejam pras suas vidas. E assim as coisas mudariam. Mas como as pessoas não são tão sérias (e ainda bem que não são, sob certo ponto de vista!) elas gostam de uma diversãozinha. O problema é que não sabem usar com moderação. Transformam a religião, o pão e o circo em ópio pras mazelas silenciosas da existência.

E tem muita gente lucrando com isso.

Peterson Cekemp

3 comentários:

Diogo disse...

Gostei da teoria do cagaço. hauhuahua

é exatamente isso q acontece,a doutrina do medo.

Mauro Sérgio disse...

Basicamente, o capitalismo cria os problemas para depois vender (falsas)soluções

splendid disse...

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JUSTIÇA

JUSTIÇA

Agora uma fabulazinha

Me falaram sobre uma floresta distante onde uma história triste aconteceu no tempo em que os pássaros falavam, os urubus bichos altivos mas sem dotes para o canto resolveram mesmo contra a natureza que havia de se tornar grandes cantores.
Abriram escolas e importaram professores, aprenderam


mi

sol

si
Encomendaram diplomas e combinaram provas entre si para escolher quais deles passariam a mandar nos demais a partir daí criaram concursos, inventaram títulos pomposos, cada urubuzinho aprendiz sonhava um dia se tornar um ilustre urubu titular afim de ser chamado por vossa excelência.
Passaram-se décadas arte que a patética harmonia dos urubus maestros foi abalada com a invasão da floresta por canários tagarelas, que faziam coro com periquitos festivos e serenatas com sabiás. Os velhos urubus encrespados entortaram o bico e convocaram canários e periquitos para um rigoroso inquérito:
cade os documentos de seus concursos?
Indagaram, e os pobres passarinhos se olharam assustados... Nunca haviam freqüentado escola de canto pois o canto nascera com eles.
Seu canto era tão natural que nunca se preocuparam em provar que sabiam cantar naturalmente cantavam
Não, não, não assim não pode, cantar sem os documentos devidos é um desrespeito a ordem, bradaram os urubus.
E em um nisoro expulsaram da floresta os inofensivos passarinhos que ousavam cantar sem alvarás...

Moral da história: em terra de urubus diplomados não se ouve os cantos dos sabiás