O dito da vez


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A explosiva descoberta
Ainda me atordoa.
Estou cego e vejo.
Arranco os olhos e vejo

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Carlos Drummond de Andrad

2 de fev de 2009

Mini-conto

Fotografia:Maleonn Ma

Broadcast

Ele bateu na porta do banheiro.
- Mãe...
- Que foi?
- Nada não...
Estava realmente inquieto. Proibido de sair à rua para brincar, pois suas notas na escola foram um desastre, restava-lhe o fundo do quintal para se divertir. Sentou-se na porta dos fundos, olhando as pipas lá no alto, dançando ao vento. Euveni lutava ali ao lado, com um tanque de roupas que parecia não acabar nunca. Ele pegou a lata de óleo de 20 litros vazia, que servia para pegar água na cisterna e enfiou na cabeça, até os ombros. Começou a cantar uma parte da música do Agnaldo Timóteo, imitando um rádio:

"Mamãe
só pra você eu contarei agora.
Mamãe
a Euveni tá com a bunda choca..."

A irmã reagiu de pronto:
- Olha, guri, não provoca, que eu vou arrebentar a sua fuça, hem...
Então, ele entrou com o noticiário:
- Atenção, atenção: Saigon urgente. O presidente Costa e Silva é um filho da puta. Ele junto com os militares vai fuder com o Brasil...- era o que ouvia das conversas do pai, com os amigos no botequim.
A irmã ficou abismada.
- Guri dos infernos! Onde você anda aprendendo esses palavrões todos? E teu pai já não falou pra não ficar falando essas coisas, que a gente pode ir todos presos! Vai ficar de castigo. Vai ficar ali de cara pra parede, anda!
Ele então tirou a lata, levantou-se e foi ficar de pé lá no canto, com a cara virada para a parede esperando pela boa vontade da irmã. Teve então uma idéia. Começou novamente a imitar o rádio:
- Atenção, atenção! A Euveni é piranha. Ontem eu vi ela alisando o pirú do Francisco no sofá, quando não tinh...
A irmã interrompeu imediatamente:
- Garoto do céu! Nao fica falando isso! Minha mãe me mata, se souber!
- Então me tira do castigo.
- Tá bem, vai...

2 comentários:

Diogo disse...

hahaha

pequeno jogo de interesses...não me lembra nada isso...rsrsrs

genial

p.s.não saia desse blog antes de ler a fábula lá do final...rs

Moacy Cirne disse...

Essa Euveni... Ah, essa Euveni... E que época, hem? Ao contrário de você, muuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuito jovem, eu a vivi com intensidade. Depois de Bosta e Silva veio Garrafazul Médici, como os chamávamos, sem que os milicos e os dedos-duros nos ouvissem, claro...

Um abraço.

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JUSTIÇA

JUSTIÇA

Agora uma fabulazinha

Me falaram sobre uma floresta distante onde uma história triste aconteceu no tempo em que os pássaros falavam, os urubus bichos altivos mas sem dotes para o canto resolveram mesmo contra a natureza que havia de se tornar grandes cantores.
Abriram escolas e importaram professores, aprenderam


mi

sol

si
Encomendaram diplomas e combinaram provas entre si para escolher quais deles passariam a mandar nos demais a partir daí criaram concursos, inventaram títulos pomposos, cada urubuzinho aprendiz sonhava um dia se tornar um ilustre urubu titular afim de ser chamado por vossa excelência.
Passaram-se décadas arte que a patética harmonia dos urubus maestros foi abalada com a invasão da floresta por canários tagarelas, que faziam coro com periquitos festivos e serenatas com sabiás. Os velhos urubus encrespados entortaram o bico e convocaram canários e periquitos para um rigoroso inquérito:
cade os documentos de seus concursos?
Indagaram, e os pobres passarinhos se olharam assustados... Nunca haviam freqüentado escola de canto pois o canto nascera com eles.
Seu canto era tão natural que nunca se preocuparam em provar que sabiam cantar naturalmente cantavam
Não, não, não assim não pode, cantar sem os documentos devidos é um desrespeito a ordem, bradaram os urubus.
E em um nisoro expulsaram da floresta os inofensivos passarinhos que ousavam cantar sem alvarás...

Moral da história: em terra de urubus diplomados não se ouve os cantos dos sabiás