O dito da vez


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A explosiva descoberta
Ainda me atordoa.
Estou cego e vejo.
Arranco os olhos e vejo

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Carlos Drummond de Andrad

27 de abr de 2009

ESPIRA



Um dia... – santa ingenuidade! – despertei para a vida... social. Acreditei que uma palavra e uma vontade lançariam de novo o “Fiat" do mundo, com a ressurreição das almas, integrando-se em si mesmas mediante a educação da infância. Mas, o sonho foi desfeito pela própria escola da vida que nos tritura com dolorosas experiências anotadas no livro aberto de cada dia.
A escola asfixia... distribui diplomas de eunucos mentais. Os educadores de todos os credos, cada qual se julga o detentor da verdade. Depois... – que candura! supús que as verdadeiras elites, as elites do sentimento e da razão modelariam o mundo nos dedos esguios dos sonhos infinitos de renovação social, na espiral que vai á eternidade através do perpetuo vir-a ser.
Incendiei-me de entusiasmo e minha voz humilde, valente e sincera veio unir-se ao côro sobre-humano dos Prometeus acorrentados ao Cáucaso fatal da sociedade moraliteista e legalmente organizada. Ingenuidade infantil!
E os sem-patria?...
E os indesejáveis?
Todo o castelo gigantesco desmoronou-se ao sopro do vendaval do conhecimento; os poderes organizados afogam, assaltam, violam, sufocam, dominam – ela força ou pela tirania, pela cátedra ou através do púlpito, pelo dinheiro ou pelas armas – os grandes, os nobres, os fortes, os generosos. E vi rebeldes e revolucionários pretendendo revolucionar o mundo, sem olhar dentro de si mesmos... Tudo inútil...
Então, observei em torno de mim, buscando a causa do problema milenar de lesa-felicidade humana.
E vi transatlânticos, submarinos, aviões, o carvão, o petróleo, maquinas sem conta, toda a ciência e todo o progresso material, em fim todo o bem estar da civilização esmagando o gênero humano. E vi revolucionários pregando como apóstolos depois de oito horas de trabalho nos arsenais de guerra... E ouvi palavras lindas e vi ações aviltantes...
E vi o servilismo, a hipocrisia, o autoritarismo dos que clamam pela liberdade. Todos querem dominar. E vi operários fabricando as armas para abrir o ventre dos seus filhos ou dos seus. E vi operários fabricando as armas para abrir o ventre dos seus filhos ou dos seus irmãos. E falando de Paz e Fraternidade... E busquei a felicidade dentro de mim mesma. Inútil é lutar fóra de mim!
A renovação está dentro do meu Ser.
Por isso, procuro iluminar minh’alma com a bondade. Por isso, desertei deste imenso mercado de consciência que é a sociedade com a sua guia voraz e sua espetaculosa teatralidade de tartufismo gran-guinnolesco em todas as classes sociais.
E consegui sorrir sem racôr ante a ignorância cultivada, de ante da perversidade organizada.
E, por ultimo, descobri, através de uma rebelião latente, a dolorosa alegria de viver, a alegria amargurada de evadir-me de todos os detetives sociais e comungar com a Natureza, em harmonia comigo mesma. E consegui viver momentos de felicidade interior, silenciosa, estóica. E então, dentro de mim, senti um deus que sonha e canta e soluça e vibra um sonho eterno de devenir, numa dolente nostalgia e no anhelo perene de outros planos de evolução, de outros estágios de consciência – engendrados em meu próprio cérebro pelo desejo, matriz de todas as cousas e de todas as formas – na ascensão para alturas inaccessíveis... E vi sorrir a Cristo, grande, estóico... E vi, nimbado de Amor, a Epíteto...
E, nas criptas profundas de meu ser, uma voz falou a voz da sabedoria de Epíteto e da Fraternidade de Cristo. E três luzes vi nos caminhos da minha consciência: Han Ryner, Mahatma Gandhi e Krishnamurti.
Conhecer-me.
Realizar-me.
Resistir ao mal com o bem.
Não cooperar com a civilização da ciência sem consciência.
Renascer de mim mesma através do “individualismo da vontade de Harmonia”.
Para aprender a amar.
Por que: Só para amar foi feita a Vida.
Artigo de Maria Lacerda de Moura

Um comentário:

Diogo disse...

adorei o texto

fala muito sobre a minha vida, acho que fala sobre a vida de todos nós que temos procupações socias, crises existenciais etc rs

bjo

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JUSTIÇA

JUSTIÇA

Agora uma fabulazinha

Me falaram sobre uma floresta distante onde uma história triste aconteceu no tempo em que os pássaros falavam, os urubus bichos altivos mas sem dotes para o canto resolveram mesmo contra a natureza que havia de se tornar grandes cantores.
Abriram escolas e importaram professores, aprenderam


mi

sol

si
Encomendaram diplomas e combinaram provas entre si para escolher quais deles passariam a mandar nos demais a partir daí criaram concursos, inventaram títulos pomposos, cada urubuzinho aprendiz sonhava um dia se tornar um ilustre urubu titular afim de ser chamado por vossa excelência.
Passaram-se décadas arte que a patética harmonia dos urubus maestros foi abalada com a invasão da floresta por canários tagarelas, que faziam coro com periquitos festivos e serenatas com sabiás. Os velhos urubus encrespados entortaram o bico e convocaram canários e periquitos para um rigoroso inquérito:
cade os documentos de seus concursos?
Indagaram, e os pobres passarinhos se olharam assustados... Nunca haviam freqüentado escola de canto pois o canto nascera com eles.
Seu canto era tão natural que nunca se preocuparam em provar que sabiam cantar naturalmente cantavam
Não, não, não assim não pode, cantar sem os documentos devidos é um desrespeito a ordem, bradaram os urubus.
E em um nisoro expulsaram da floresta os inofensivos passarinhos que ousavam cantar sem alvarás...

Moral da história: em terra de urubus diplomados não se ouve os cantos dos sabiás