O dito da vez


Cquote1.svg

A explosiva descoberta
Ainda me atordoa.
Estou cego e vejo.
Arranco os olhos e vejo

Cquote2.svg
Carlos Drummond de Andrad

10 de nov de 2009

O que acontece?

Arte:Paolo

Na exaustão causada pelo sentimentalismo barato, vemos uma geração perdida em um espaço sem idéias ou ideais.
Há perda?
A alma ainda trêmula ecoa a febre do sangue, a alma que ama e canta porque em sua vida o espanto ainda manifesta-se através do viver que a nossa realidade impõe, mas que encerra em si muita verdade e muita natureza, e que sem ser obsceno pode ser erótico sem ser monótono.
Digam e creiam o que quiserem.
Todo o vaporoso da visão abstrata não
interessa tanto como a realidade formosa da bela mulher a quem amamos.
Através do amor ganhemos força, moribundos...
O poema então começa pelos últimos crepúsculos do misticismo, brilhando sobre a
vida como a tarde sobre a terra. A poesia puríssima banha com seu reflexo da ideal beleza
sensível e nua.
Nos despindo de conceitos pré-estabelecidos, criemos!






...
A poesia é de cerco uma loucura,
Sêneca o disse, um homem de renome.
É um defeito no cérebro.. Que doudos!
É um grande favor, é muita esmola
Dizer-lhes bravo! à inspiração divina,
E, quando tremem de miséria e fome,
Dar-lhes um leito no hospital dos loucos...
Quando é gelada a fronte sonhadora,
Por que há de o vivo que despreza rimas
Cansar os braços arrastando um morto,
Ou pagar os salários do coveiro?
A bolsa esvazia por um misérrimo
Quando a emprega melhor em lodo e vício!
Álvares de Azevedo

Um comentário:

Carolina Queiroz disse...

Isso que eu vou dizer é bem abrangente, mas é necessário: Tudo aqui casa tão bonito. É muito limpo, muito abstrato (sem deixar de ser concreto), muito elucidadito e muito lúdico... As vezes parece comigo, Karina (risos).

Adoro.

Postar um comentário

dizeres

JUSTIÇA

JUSTIÇA

Agora uma fabulazinha

Me falaram sobre uma floresta distante onde uma história triste aconteceu no tempo em que os pássaros falavam, os urubus bichos altivos mas sem dotes para o canto resolveram mesmo contra a natureza que havia de se tornar grandes cantores.
Abriram escolas e importaram professores, aprenderam


mi

sol

si
Encomendaram diplomas e combinaram provas entre si para escolher quais deles passariam a mandar nos demais a partir daí criaram concursos, inventaram títulos pomposos, cada urubuzinho aprendiz sonhava um dia se tornar um ilustre urubu titular afim de ser chamado por vossa excelência.
Passaram-se décadas arte que a patética harmonia dos urubus maestros foi abalada com a invasão da floresta por canários tagarelas, que faziam coro com periquitos festivos e serenatas com sabiás. Os velhos urubus encrespados entortaram o bico e convocaram canários e periquitos para um rigoroso inquérito:
cade os documentos de seus concursos?
Indagaram, e os pobres passarinhos se olharam assustados... Nunca haviam freqüentado escola de canto pois o canto nascera com eles.
Seu canto era tão natural que nunca se preocuparam em provar que sabiam cantar naturalmente cantavam
Não, não, não assim não pode, cantar sem os documentos devidos é um desrespeito a ordem, bradaram os urubus.
E em um nisoro expulsaram da floresta os inofensivos passarinhos que ousavam cantar sem alvarás...

Moral da história: em terra de urubus diplomados não se ouve os cantos dos sabiás