O dito da vez


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A explosiva descoberta
Ainda me atordoa.
Estou cego e vejo.
Arranco os olhos e vejo

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Carlos Drummond de Andrad

25 de abr de 2010

O amor é livre!




[Marian Pessah é fotógrafa e escritora feminista lésbica super ativa e integrante do coletivo Mulheres Rebeldes. Ela concedeu a entrevista abaixo à Leonor Silvestri, onde fala da questão do amor livre.]

Pergunta > Sua oficina sobre Amor Livre, no Encontro de mulheres lesbianas e bissexuais, que se realizou este ano [2008] em Rosário [Argentina] foi a mais concorrida…

Marian < Sim, foi muito louco. Sabia que iam ir muitas, mas não esperava tanto. A primeira vez que fizemos isto foi no Encuentro Lésbico Feminista de América latina y el Caribe no México com Ochy Curiel, e foi uma das mais disputadas, ou seja, não me surpreendeu tanto, de 400 mulheres mais de 100 vieram, e fisicamente não houvera mais lugar…

Pergunta > O que pensa que estão buscando as garotas?

Marian < O comum denominador das que assistiram não buscou um lugar rupturista senão veio em buscas de uma maneira de manejar os cornos. “Lhe conto ou não lhe conto se gosto desta mina ou gosto da outra?” Não vão ao ponto da questão, de porque têm que se fechar as relações. Existe uma fita que te diz “assim tem que pensar” e o repete. Também vieram muitas muito perdidas que nunca haviam escutado falar de nada disto. Há muitas que não são conscientes de que reprimem seus desejos, nem sequer pensam em seu desejo e não vão ao ponto da questão: porque tem que fechar. Por exemplo, uma garota em uma oficina me contou: “Se eu estou com alguém e outra me excita, deixo esta relação e começo uma nova”, unindo sempre sexo com namoro.

Pergunta > Existe o mito de que as mulheres são mais conservadoras…

Marian < Eu acredito no sexo sem amor, porque ai também está o mito de que nós não nos excitamos: nós queremos foder e somos sexuais, queremos sexo selvagem. Sempre que há mutuo acordo e cuidado, está tudo bem. Se eu quero que me chicoteiem e outra quer chicotear-me – porque não? -, tudo o que seja mutuamente consensual, tudo o que seja prazer consensual faz parte disto. Contudo, a oficina foi muito boa, visibilizou, denunciou e serviu para começar a falar deste tema e ademais foi a única que questionou a monogamia. Estas oficinas que eu armo são egoístas, as faço para poder entender mais. O sistema não vai se meter no meu corpo. Se algum dia estiver só com uma mulher, será uma escolha, a questão é escolher.

Pergunta > Como se diz: amor livre, casamento aberto ou relações abertas?

Marian < Eu digo amor livre, é um termo que vem da anarquia, e por isso é político, ou relações abertas, que tampouco significa um namoro, namoro é dois, é fechado. Relações que são muitas e vão e vem, é disto que falo. Para mim, amor livre e relações abertas são sinônimos. Meu trabalho enfoca-se em feministas lésbicas, nesse marco teórico. Cito o trabalho começado por Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre, Alexandra Kollontai ou Emma Goldman, Pizano também. Sou anarquista, quero falar deste lugar politicamente, não só da cama.

Pergunta > Porque pensa que a gente necessita de relações abertas?

Marian < Eu começaria pelo contrário: porque a gente necessita fechá-las, quando é uma imposição da sociedade que diz que há de fechá-las, e reproduzir modelos. Se fecha o amor porque a sociedade necessita organizar-nos, o mesmo que necessita a polícia e os militares. Quando falamos disto surge: “até onde vamos chegar?”. E eu mudo a ênfase e digo: “Até onde iremos chegar? Que será bom que possamos descobrir desde o amor e desde a liberdade.

Pergunta > O pratica?

Marian < Eu tenho uma relação aberta. Faz 4 anos que estamos juntas e 3 que vivemos juntas, mas desde um ano e meio atrás eu tenho viajado muito. Clarisse disse que nos agüentamos porque eu viajo, uma piada. Com Clari tenho uma relação profunda, mas em outras relações odeio hierarquizar, dizer que ela é minha relação principal, mas esta relação é mais forte e isso se dá “naturalmente”. É complicado o tema de nomear, mas se não damos nome, não existe. Tampouco sei se vamos estar toda a vida juntas.

Pergunta > Como começou?

Marian < Quando me separei, depois de uma relação de 6 anos super hermética, conheci a Clarisse e começamos a ficar juntas; até estar com ela nunca imaginei que eu fosse isto que sou hoje. Não sei como passou, mas começamos a conversar sobre fidelidade; a medida que nosso afeto crescia, eu lhe falei que não sabia como era ser fiel ou infiel e que não queria voltar àquele tipo de relação de antes porque muitas vezes reprimia o que sentia e desejava. Desde de que estou com Clari eu nunca estive com tantas mulheres e nunca amei a alguém tanto como amo ela, porque com ela descobri a liberdade. Eu gosto de mulheres, porque tenho que deixar de gostar? Há uma que amo profundamente, mas não é a única que gosto. Eu ponho palavra ao desejos, não tenho só desejo por essa única mulher, a qual deveria jurar amor eterno, temos uma relação conversada. Clarisse me disse “se um dia nos separamos você segue vivendo aqui, juntas”, nosso amor vai mais além do sexual, que de todas forma existe, que nos une.

Pergunta > Conhece outras mulheres que trabalham este tema?

Marian < Somos poucas as que vêm trabalhando isto, há algumas que o trabalham mais teoricamente, mas nunca na prática. Eu queria um grupo de estudo, além de oficinas de vivência. Eu não quero dar aulas. É mais: uma vez quisemos abrir um albergue transitório de lesbianas, porque não há, mas com um preço econômico, que não se lucre. Os espaços onde relacionar-se com uma sexualidade mais livre como fazem os homens (motéis, sex shops, saunas) se podem propor, mas sem ânimos de ganhar dinheiro.

Pergunta > Porque é tão difícil viver uma relação aberta?

Marian < É um tema que custa muitíssimo porque trata de se meter com o cimento, com a base, de ir ao fundo e não fica nada em pé: toca a família, a religião, seu pai e sua mãe, a economia e todo que te ensinaram. Vamos para além de uma relação convencional e nos unimos a destruição da família e buscamos armar núcleos afetivos, não famílias alternativas como se diz agora, que continuam com o peso tão forte do patriarcado e da igreja. Eu quero destruir, começar pela raiz. Teríamos que voltar a inventar novas formas de relacionar-se, porque até o meio arquitetônico predispõe e arma; se vivêssemos de outra maneira, em contato com a natureza, onde eu pudesse ter meu próprio espaço em comunidade, talvez se resolveria.

Pergunta > Como é o dia a dia em uma relação aberta?

Marian < Com Clari temos alguns acordos que são importantes e que não são imóveis. Por exemplo, quando juntas no mesmo espaço não flertamos. E na cidade, Porto Alegre, onde vivemos, não buscamos outras pessoas. Cada relação tem seus próprios acordos, estes são nossos acordos, cada uma terá os seus. Os ciúmes desconstroem no espaço, o ciúme é o medo de perder. Eu gosto de outra pessoa, mas te sigo querendo, e não quero escolher. Eu a ajudei a traduzir e-mails para uma mulher espanhola com a qual ela esteve. E isso nos une mais.

Pergunta > Mas você sempre volta a Clarisse?

Marian < Eu estou com ela, não volto por que não me vou. Ainda que isto gere conflito porque gera hierarquias.

Pergunta > Sua postura gera algum conflito com as pessoas que te conhecem?

Marian < Estamos cheias de moral e misoginia, chegaram a me chamar de “puta arrebentada”; e muitas não me dizem, mais sei que pensam. Algumas vezes me fazem pergunta do tipo: “e se os braços de tua Clarisse abraçam a outra mulher?” E bom -eu digo- são seus braços, não os meus, e não me pertencem.

Tradução > Antonio Henrique

Revisão > Íris Nery

agência de notícias anarquistas-ana

No rio, a canoa
pinta em verde
o seu reflexo.

Eugénia Tabosa

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JUSTIÇA

JUSTIÇA

Agora uma fabulazinha

Me falaram sobre uma floresta distante onde uma história triste aconteceu no tempo em que os pássaros falavam, os urubus bichos altivos mas sem dotes para o canto resolveram mesmo contra a natureza que havia de se tornar grandes cantores.
Abriram escolas e importaram professores, aprenderam


mi

sol

si
Encomendaram diplomas e combinaram provas entre si para escolher quais deles passariam a mandar nos demais a partir daí criaram concursos, inventaram títulos pomposos, cada urubuzinho aprendiz sonhava um dia se tornar um ilustre urubu titular afim de ser chamado por vossa excelência.
Passaram-se décadas arte que a patética harmonia dos urubus maestros foi abalada com a invasão da floresta por canários tagarelas, que faziam coro com periquitos festivos e serenatas com sabiás. Os velhos urubus encrespados entortaram o bico e convocaram canários e periquitos para um rigoroso inquérito:
cade os documentos de seus concursos?
Indagaram, e os pobres passarinhos se olharam assustados... Nunca haviam freqüentado escola de canto pois o canto nascera com eles.
Seu canto era tão natural que nunca se preocuparam em provar que sabiam cantar naturalmente cantavam
Não, não, não assim não pode, cantar sem os documentos devidos é um desrespeito a ordem, bradaram os urubus.
E em um nisoro expulsaram da floresta os inofensivos passarinhos que ousavam cantar sem alvarás...

Moral da história: em terra de urubus diplomados não se ouve os cantos dos sabiás