O dito da vez


Cquote1.svg

A explosiva descoberta
Ainda me atordoa.
Estou cego e vejo.
Arranco os olhos e vejo

Cquote2.svg
Carlos Drummond de Andrad

16 de mai de 2010

Currículo e transformação (parte I)


A educação é um processo feito de gente e por gente. E não é preciso insistir que gente é diversa, é inconclusa (como afirma Paulo Freire). E gente tem história... Tem também um processo de desenvolvimento pessoal, um histórico de aprendizagens e de escolarização: um “Currículum Vitae”, que precisa ser considerado.

A perspectiva é da construção de condições para a cidadania que se expressa, primeiramente, nas ações do cotidiano mais próximo, no caso de nossas crianças e adolescentes, a escola, e é este espírito que se pode encontrar nas orientações que fazem em seu artigo terceiro, Inciso V, as Diretrizes Curriculares Nacionais para o Ensino Fundamental: [...] os alunos, ao aprenderem os conhecimentos e valores da base nacional comum e da parte diversificada, estarão também construindo sua identidade como cidadãos, capazes de serem protagonistas de ações responsáveis, solidárias e autônomas em relação a si próprios, às suas famílias e às comunidades.

O currículo repercute na vida dos educandos e educadores que se envolvem na busca de conhecimentos, onde todos/as aprendem e ensinam, já que a aprendizagem é uma característica humana que se realiza nas relações de troca e encontra fundamento no inacabamento de homens e mulheres – humanos – que, exatamente por isso, são educáveis. Assim como os humanos, o currículo não é algo pronto e acabado, algo dado, mas é processo de vários significados e envolve diversas visões, temas e interpretações nem sempre concordantes.

A discussão em torno do currículo tem focado principalmente temas controversos relacionados à: Ideologia; Cultura; Poder; Interdisciplinaridade; Tecnologias; seus aspectos implícitos, o que chamamos de currículo oculto. Diante a tudo isto se pode concluir que o Currículo é território de disputa, como afirma Moreira (1995).
O debate em torno do currículo tem assumido maior importância nos dias atuais, especialmente em virtude de recentes discussões acerca dos conteúdos ministrados na escola básica e da qualidade da educação no Brasil. Há um grande número de pessoas com opinião a respeito da educação e do que se deve fazer para melhorar. Desde pessoas com menor escolaridade até os/as formados/as em nível superior opinam sobre a educação.


Percebendo a importância significativa do profissional da educação para o desenvolvimento dos saberes selecionados aos educandos, nos perguntamos, será nosso trabalho condicionado pelas hierarquias, carga horária, etc.? Compreendendo que somos sujeitos que constroem história o prestigio dado ou não a nossa atuação docente e ao currículo ao qual nos baseamos vai depender do nosso comprometimento não apenas com os educando, como também, nossa própria consciência de educador.
Segundo Arroyo,

o currículo é o pólo estruturante de nosso trabalho. As formas em que trabalhamos, a autonomia ou falta de autonomia, as cargas horárias, o isolamento em que trabalhos... dependem ou estão estreitamente condicionados às lógicas em que se estruturam os conhecimentos, os conteúdos, matérias e disciplinas nos currículos (2008, p.18).


O condicionamento que sofremos tem haver não apenas com a hierarquização do ambiente educativo mais também em como se organiza a própria escola o que não pode ocorrer sem a organização do currículo. Logo, deve-se ressaltar a importância do trabalho coletivo dos profissionais da educação na construção de parâmetros de sua atividade, para que isso ocorra além da vontade dos educadores necessitamos de refletir a criança, quem é este educando que encontramos hoje em nossas salas de aulas?
Se libertar de conceitos estabelecidos sobre a infância de outras décadas é um dos passos para a mudança de nossa práxis, salientando que acredito no currículo como algo inacabado podemos assim interagir com o que ele estabelece, o recriando de acordo com as necessidades reais de nossos educandos. É preciso afirmar que nem a cultura, nem a educação e o currículo, como seu organizador básico, pode ser visto como algo neutro. O próprio entendimento de cultura é terreno de disputa, o que impossibilita falar de uma cultura universal e unitária aceita por todos/as a ser transmitida para crianças e adolescentes.

Reconhecendo as varias interpretações e conceitos dados ao currículo, neste texto vamos concebê-lo de acordo com a conceituação que Moreira e Candau o faz no texto Currículo, conhecimento e cultura - produzido para o MEC, como proposta de reflexão e debate as escolas de nosso país.

Estamos entendendo currículo como as experiências escolares que se desdobram em torno do conhecimento, em meio as relações sociais, e que contribuem para a construção das indenidades de nossos/as estudantes. Currículo associa-se, assim, ao conjunto de esforços pedagógicos desenvolvidos com intenções educativas (2008, p.18).


Na escola, quando as necessidades individuais são transferidas para o grupo, os profissionais não só tomam consciência da dimensão dos problemas existentes nos diferentes sujeitos que constituem os segmentos existentes, como passam a definir objetivos comuns a todos e propor ações planejadas. O trabalho pedagógico, neste caso, ajuda na compreensão dos eixos organizadores para que se tenha visão de totalidade da instituição.

Karina Meireles

Nenhum comentário:

Postar um comentário

dizeres

JUSTIÇA

JUSTIÇA

Agora uma fabulazinha

Me falaram sobre uma floresta distante onde uma história triste aconteceu no tempo em que os pássaros falavam, os urubus bichos altivos mas sem dotes para o canto resolveram mesmo contra a natureza que havia de se tornar grandes cantores.
Abriram escolas e importaram professores, aprenderam


mi

sol

si
Encomendaram diplomas e combinaram provas entre si para escolher quais deles passariam a mandar nos demais a partir daí criaram concursos, inventaram títulos pomposos, cada urubuzinho aprendiz sonhava um dia se tornar um ilustre urubu titular afim de ser chamado por vossa excelência.
Passaram-se décadas arte que a patética harmonia dos urubus maestros foi abalada com a invasão da floresta por canários tagarelas, que faziam coro com periquitos festivos e serenatas com sabiás. Os velhos urubus encrespados entortaram o bico e convocaram canários e periquitos para um rigoroso inquérito:
cade os documentos de seus concursos?
Indagaram, e os pobres passarinhos se olharam assustados... Nunca haviam freqüentado escola de canto pois o canto nascera com eles.
Seu canto era tão natural que nunca se preocuparam em provar que sabiam cantar naturalmente cantavam
Não, não, não assim não pode, cantar sem os documentos devidos é um desrespeito a ordem, bradaram os urubus.
E em um nisoro expulsaram da floresta os inofensivos passarinhos que ousavam cantar sem alvarás...

Moral da história: em terra de urubus diplomados não se ouve os cantos dos sabiás