O dito da vez


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A explosiva descoberta
Ainda me atordoa.
Estou cego e vejo.
Arranco os olhos e vejo

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Carlos Drummond de Andrad

18 de mai de 2010

Currículo e transformação (parte II)


Entender o significado de trabalho coletivo na perspectiva da Teoria Histórico-Cultural faz a diferença quando se pretende ser um educador que articula sua prática pedagógica. Levando em consideração que a educação se reflete e se constrói ao longo da história por influência da situação econômica vigente, entendemos que, há imposição cultural para fortalecer estes fins econômicos, o que caracteriza nossa sociedade, pois, “a globalização envolve uma interação entre fatores econômicos e culturais, causando mudanças nos padrões de produção e consumo, as quais por sua vez, produzem identidades novas e globalizadas” (WOODWARD, 2000, p.20), esta constante transformação torna necessário o constante questionamento para a tentativa de entendimento dos educadores e educandos, o sujeito se transforma.

O autor Stuart Hall em seu livro a identidade cultural na pós-modernidade nos coloca uma reflexão relevante para a compreensão dos processos de mudança, que tomados em conjunto, representam um processo de transformação tão fundamental e abrangente que somos compelidos a perguntar se não é a própria modernidade que está sendo transformada. Este livro acrescenta uma nova dimensão a esse argumento: a afirmação de que naquilo que é descrito, algumas vezes, como nosso mundo pós-moderno, nós somos também "pós" relativamente a qualquer concepção essencialista ou fixa de identidade - algo que, desde o Iluminismo, se supõe definir o próprio núcleo ou essência de nosso ser e fundamentar nossa existência como sujeitos humanos.

A fim de empreender essa afirmação, devemos observar primeiramente as definições de identidade e o caráter da mudança na modernidade tardia. Primeiramente surge o sujeito do Iluminismo, que estava baseado numa concepção da pessoa humana como um indivíduo totalmente centrado, unificado, Na segunda metade do século XX com as transformações da economia moderna os estudos sociais ganham vez e voz, dando espaço à idéia de um sujeito que não era autônomo e auto-suficiente, mas era formado na relação com "outras pessoas importantes para ele", que mediavam para o sujeito os valores, sentidos e símbolos - a cultura - dos mundos que ele/ela habitava.

O próprio processo de identificação, através do qual nos projetamos em nossas identidades culturais, tornou-se mais provisório e variável, esse processo produz o sujeito pós-moderno, compreendido e conceituado como não tendo uma identidade fixa. A identidade torna-se uma celebração móvel, “assim, a identidade é realmente algo formado, ao longo do tempo, através de processos inconscientes, e não algo inato, existente na consciência no momento do nascimento” (HALL, 2006, p.38). É definida historicamente, e não biologicamente. O sujeito assume identidades diferentes em diferentes momentos, identidades que não são unificadas ao redor de um "eu".

Este novo cenário que se forma no ensino de nosso país, nos obriga como educadores(as) a repensar o pensado (re)criando possibilidades educativas, relacionando-as com os anseios das crianças e adolescentes imersos em um mundo complexo aonde as identidades segundo Woodward são marcadas pela diferença, em um sistema classificatório, competitivo, ao mesmo tempo a escola se posiciona construindo sim, currículo, afirmando e reafirmando saberes estabelecidos pela necessidade deste sistema, que é baseado na exclusão, “um sistema classificatório aplica um principio de diferença a uma população de uma forma tal que seja capaz de dividi-la” (WOODWARD, 2000, p.40).

Daí a necessidade de uma nova postura dos educadores, percebendo no currículo um espaço em que se reescreve o conhecimento escolar “o que estamos desejando, [...] é que os interesses ocultados sejam identificados, evidenciados e subvertidos, para que possamos, então, reescrever os conhecimentos” (MOREIRA & CANDAL, 2008, p. MOREIRA & CANDAL, 2008, p. 32). Isto significa que a criação de diferentes formas de construir o conhecimento deve se torna um habito em nosso cotidiano em sala de aula, para que a educação ganhe o significado ativo na vida dos educandos.

O desafio deve ser nosso condutor enfrente a curiosidade e a transformação dos sujeitos que estamos ajudando a formar em nossa pratica pedagógica, ter consciência que o currículo como também a organização dos conhecimentos escolares transformam a cultura e nossa realidade, nos mostra o poder que temos nas mãos, é através desta ação consciente e reflexiva sobre nossa realidade e os conhecimentos tanto produzidos quanto repassados que podemos interagir e por que não transforma o ambiente escolar.
Karina Meireles

Referências
ARROYO, Miguel G. Indagações sobre currículo: educandos e educadores. Brasília: Ministério da Educação, Secretaria de Educação Básica, 2008.

BRASIL, Ministério da Educação, Secretaria de Educação Básica. Diretrizes Curriculares para o Ensino Fundamental. Disponível em: http://www.zinder.com.br/legislacao/dcn.htm#ceb498. Acesso em 09 de dez 2009.

HALL, Stuart. A Identidade Cultural na Pós-Modernidade. Trad. Tomaz Tadeu da
Silva, Guaracira Lopes Louro. 11 ed. Rio de Janeiro: DP& A, 2006.

MOREIRA, Antônio Flávio Barbosa; CANDAU, Vera Maria. Indagações sobre currículo: currículo, conhecimento e cultura. Brasília: Ministério da Educação, Secretaria de Educação Básica, 2008.

MOREIRA, A. F. e SILVA, T. T. Currículo, cultura e sociedade. São Paulo: Cortez, 1995.

WOODWARD, Katryn; HALL; Stuart. Identidade e diferença: a perspectiva dos estudos culturais. SILVA, Tomaz T. da (org.). Petrópolis: Vozes, 2000.

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JUSTIÇA

JUSTIÇA

Agora uma fabulazinha

Me falaram sobre uma floresta distante onde uma história triste aconteceu no tempo em que os pássaros falavam, os urubus bichos altivos mas sem dotes para o canto resolveram mesmo contra a natureza que havia de se tornar grandes cantores.
Abriram escolas e importaram professores, aprenderam


mi

sol

si
Encomendaram diplomas e combinaram provas entre si para escolher quais deles passariam a mandar nos demais a partir daí criaram concursos, inventaram títulos pomposos, cada urubuzinho aprendiz sonhava um dia se tornar um ilustre urubu titular afim de ser chamado por vossa excelência.
Passaram-se décadas arte que a patética harmonia dos urubus maestros foi abalada com a invasão da floresta por canários tagarelas, que faziam coro com periquitos festivos e serenatas com sabiás. Os velhos urubus encrespados entortaram o bico e convocaram canários e periquitos para um rigoroso inquérito:
cade os documentos de seus concursos?
Indagaram, e os pobres passarinhos se olharam assustados... Nunca haviam freqüentado escola de canto pois o canto nascera com eles.
Seu canto era tão natural que nunca se preocuparam em provar que sabiam cantar naturalmente cantavam
Não, não, não assim não pode, cantar sem os documentos devidos é um desrespeito a ordem, bradaram os urubus.
E em um nisoro expulsaram da floresta os inofensivos passarinhos que ousavam cantar sem alvarás...

Moral da história: em terra de urubus diplomados não se ouve os cantos dos sabiás