O dito da vez


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A explosiva descoberta
Ainda me atordoa.
Estou cego e vejo.
Arranco os olhos e vejo

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Carlos Drummond de Andrad

29 de mai de 2010

A rebeldia é a penúltima doença inventada


O medo induzido e seus efeitos colaterais são conhecidos de longe. Nestes dias comprovamos com o “pânico global”, pela difusão da gripe que de início foi noticiada como suína, e agora é tipo A. Durante os últimos anos os laboratórios farmacêuticos estão dedicando grandes esforços para expandir enfermidades que não são, ou que não tem a importância que deve. Esse fenômeno é conhecido como disease mongering, tráfico ou venda de doenças. O objetivo é deixar o mundo todo medicado para algo: o conceito de doença está sendo a cada dia modificado, para com isso abarcar a maior quantidade de pessoas que sejam catalogadas como “doentes”, mesmo que não estejam, obviamente. Algumas doenças inventadas são absurdas, mas hoje vamos falar da mais pitoresca dentre as “novas enfermidades”: a rebeldia. Sim, a rebeldia também é uma doença!

Um dos laboratórios interessados em vender um remédio - metilfenidato (Concerta)- para esta gravíssima patologia explica na web, criada expressamente para promover o Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH), que entre os transtornos presentes junto ao TDAH, está o Transtorno Oposicionista Desafiante (TOD). O que na realidade, nos parece uma embromação. O TOD foi incluído pela primeira vez no manual DSM III-R. Este é o livro que atua como uma “Bíblia” da psiquiatria. Segundo a farmacêutica citada, o Transtorno Oposicionista Desafiante:

“Consiste em um padrão de condutas negativistas (sic), hostis e desafiantes presente de forma persistente durante pelo menos 6 meses. Estas condutas incluem discussões com adultos (sintoma especialmente pensado para adolescentes e crianças), raiva, aborrecimento, negação em cumprir as normas estabelecidas ou ordens de adultos, mentiras, culpar outros por sua má conduta e ressentimento”.

Acredito que não é exagerado dizer que quase qualquer pessoa que esteja lendo isto encontrará parte de sua vida ou infância exibida neste catálogo de “horrores patológicos”, que nos adverte com tão preocupada boa intenção Janssen-Cilag. Para entender, aí sim, este doentio paroxismo dos laboratórios, é muito útil pensarmos no contra-argumento, se é que podemos aqui chamá-lo de retaliação não-científica. Existem pessoas que ao menos durante uma época de suas vidas não tenha discutido com adultos ou não tenham sentido raiva ou aborrecimentos? Existem pessoas que praticamente sempre, durante sua infância ou adolescência tenham cumprido todas as normas estabelecidas ou ordens de seus “superiores” adultos? Realmente, acho dificílimo de uma situação dessas existir.

O que define o laboratório Janssen-Cilag como uma perigosa enfermidade é a rebeldia. Quem sabe, não seja casualidade que uma sociedade das menos rebeldes que a Humanidade já experimentou (me refiro a atual, claro), coincida com a era de “todos doentes” que vivemos. Quem sabe alguns governos e indústrias tenham grande interesse em “patologizar” aos jovens desde o berço. Porque, quem sabe, o autoritarismo democrático e industrial está semeando no ocidente os ventos da desobediência que colherão estas e as gerações próximas.

Ao catalogar a rebeldia como uma doença, a indústria farmacêutica, um dos setores estratégicos básicos do atual capitalismo, em conivência com os governos, que têm suas campanhas eleitorais patrocinadas por estas indústrias para gerar dependência [1], consegue dois objetivos: estender mercados até o infinito e manter o controle social, fomentando atitudes submissas e oferecendo pílulas “sócio-calmantes”, à todos aqueles que se mostrem “diferentes”. E os médicos que não colaboram com este propósito que tenham muito cuidado, pois correm o risco de também serem considerados rebeldes!

O escritos Juan Gelman descreve muito bem a situação em seu artigo “A dominação dos jovens bravos”:

“Existe uma verdadeira parafernália para conseguir dobrar os jovens nos EUA, e o remédio é bem simples: consiste em criminalizar, e mais, patologizar os jovens norte-americanos rebeldes, inconformados com o autoritarismo e que o desafiam. É só considerarmos todos, com transtornos mentais, e dermos tranqüilizantes, anfetaminas e outras substâncias psicotrópicas. A Associação Estadunidense de Psiquiatria batizou a suposta patologia em 1980: é denominada de desordem de oposição desafiante (ODD, sua sigla em inglês) e não se aplica aos delinqüentes juvenis. Mas sim aqueles que não recorrem a atividades ilegais, mas demonstram “um comportamento negativo, hostil e desafiante”.


Como em tantas ocasiões, a busca pelas origens, causas, destes problemas, se é que são problemas, se estende até o infinito. Como podemos comprovar, nestes “transtornos mentais” se destacam apenas os aspectos negativos, que levam a paroxismos para difundir temor, o que pode ocultar os aspectos positivos da personalidade. Cada pessoa é diferente e acredito que é mais construtivo perguntarmos em que está pensando uma criança quando está distraída, do que simplesmente achar que representa um sintoma do que denominamos hiperatividade. Porque, talvez, essas atitudes que qualificamos de patológicas são a manifestação de uma inteligência acima da média ou de uma personalidade criativa, ou de uma vocação artística. Se considerarmos estas condições como sintomas de doenças e medicamos a todos, há somente artificialidade com a química – podemos estar assistindo a uma nova queima de livros, que ao invés de desenvolver-se durante a negra noite nazi na Bebelplatz de Berlim, estaria sendo levada a cabo todos os dias em qualquer parte do mundo que consideramos civilizado.

por Miguel Jara

[1] O capítulo "O lobby farmacêutico" entra em política, do livro “Traficantes de salud: Cómo nos venden medicamentos peligrosos y juegan con la enfermedad“, de Miguel Jara, (Icaria Editorial, 2007) pp. 266-285, que aborda esta questão.

Tradução > Palomilla Negra

agência de notícias anarquistas-ana


dos ramos altos no rio
caem suavemente
farrapos do sol poente


Rogério Martins

Um comentário:

disse...

e na sociedade dos fracos massificados a opinião dos técnicos é inquestionável. se um especialista diz: esse jovem é um perigo para a sociedade e precisa de lavagem cerebral. a sociedade diz: seja feita a lavagem cerebral, ele não pode por em risco nosso bem estar.
isso sempre foi feito. os especialistas dizem até se orgulhar por não usar mais choque elétrico.
e há algo estranho no sistema do medo, depois de passada a fase do susto, as ovelhas passam a trabalhar por ele, tornar-se seu cúmplice deve causar menor medo. sei lá.
boa resenha, a questão ficou muito bem exposta.

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JUSTIÇA

JUSTIÇA

Agora uma fabulazinha

Me falaram sobre uma floresta distante onde uma história triste aconteceu no tempo em que os pássaros falavam, os urubus bichos altivos mas sem dotes para o canto resolveram mesmo contra a natureza que havia de se tornar grandes cantores.
Abriram escolas e importaram professores, aprenderam


mi

sol

si
Encomendaram diplomas e combinaram provas entre si para escolher quais deles passariam a mandar nos demais a partir daí criaram concursos, inventaram títulos pomposos, cada urubuzinho aprendiz sonhava um dia se tornar um ilustre urubu titular afim de ser chamado por vossa excelência.
Passaram-se décadas arte que a patética harmonia dos urubus maestros foi abalada com a invasão da floresta por canários tagarelas, que faziam coro com periquitos festivos e serenatas com sabiás. Os velhos urubus encrespados entortaram o bico e convocaram canários e periquitos para um rigoroso inquérito:
cade os documentos de seus concursos?
Indagaram, e os pobres passarinhos se olharam assustados... Nunca haviam freqüentado escola de canto pois o canto nascera com eles.
Seu canto era tão natural que nunca se preocuparam em provar que sabiam cantar naturalmente cantavam
Não, não, não assim não pode, cantar sem os documentos devidos é um desrespeito a ordem, bradaram os urubus.
E em um nisoro expulsaram da floresta os inofensivos passarinhos que ousavam cantar sem alvarás...

Moral da história: em terra de urubus diplomados não se ouve os cantos dos sabiás