O dito da vez


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A explosiva descoberta
Ainda me atordoa.
Estou cego e vejo.
Arranco os olhos e vejo

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Carlos Drummond de Andrad

15 de jul de 2010

O inferno são os outros?


Quando vou ao cinema, vejo filas, esbarro em pessoas que compram balas, que disputam lugares ou que riem na sessão que ainda não terminou. Todas elas são objetos para mim: filas, quantidades, multidão anônirna que ri, massa que briga por um lugar.
Só eu me sinto sujeito. Eu os meço, classifico, analiso.
Eu é que tenho projetos, tenho consciência. Não sou uma coisa entre as coisas.

Já sentada, esperando a próxima sessão de cinema, de repente meu olhar encontra um olhar que me observa (porque minha meia não combina com a minha roupa? Ou porque tenho uma mancha na camisa? Ou porque não sou bonita como a atriz daquele filme?). Nesse momento, como por mágica, esse olhar me transforma num objeto.
Esse olhar me escapa. Pelo olhar, seu (sua) dono (a) se recusa a tornar-se objeto do meu olhar. É como um duelo.

Tomo, assim, consciência, pelo olhar do outro, de que ele é também consciência. Tal é o cerne da vergonha e do pudor: sinto-me olhado e considerado um objeto.
Apenas minha "casca", meu corpo é olhado e não o meu ser consciente, o meu universo interior.

É por isso que muitas meninas, mesmo que estejam vestidas dos pés ao alto do pescoço, se sentem desnudadas por um olhar que as enche de vergonha. Por outro lado, pode ser que, mesmo usando o biquíni mais sumário, a jovem se sinta perfeitamente dona de seu corpo conforme o tipo do olhar que se dirige a ela.
O olhar do outro me rouba o mundo que era meu e rouba a minha intimidade.

2 comentários:

Lux Alt - INCØGNITØ disse...

Muito massa! Me senti olhando no espelho.

romero disse...

Karina, texto muito bom! Abraço.

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JUSTIÇA

JUSTIÇA

Agora uma fabulazinha

Me falaram sobre uma floresta distante onde uma história triste aconteceu no tempo em que os pássaros falavam, os urubus bichos altivos mas sem dotes para o canto resolveram mesmo contra a natureza que havia de se tornar grandes cantores.
Abriram escolas e importaram professores, aprenderam


mi

sol

si
Encomendaram diplomas e combinaram provas entre si para escolher quais deles passariam a mandar nos demais a partir daí criaram concursos, inventaram títulos pomposos, cada urubuzinho aprendiz sonhava um dia se tornar um ilustre urubu titular afim de ser chamado por vossa excelência.
Passaram-se décadas arte que a patética harmonia dos urubus maestros foi abalada com a invasão da floresta por canários tagarelas, que faziam coro com periquitos festivos e serenatas com sabiás. Os velhos urubus encrespados entortaram o bico e convocaram canários e periquitos para um rigoroso inquérito:
cade os documentos de seus concursos?
Indagaram, e os pobres passarinhos se olharam assustados... Nunca haviam freqüentado escola de canto pois o canto nascera com eles.
Seu canto era tão natural que nunca se preocuparam em provar que sabiam cantar naturalmente cantavam
Não, não, não assim não pode, cantar sem os documentos devidos é um desrespeito a ordem, bradaram os urubus.
E em um nisoro expulsaram da floresta os inofensivos passarinhos que ousavam cantar sem alvarás...

Moral da história: em terra de urubus diplomados não se ouve os cantos dos sabiás