O dito da vez


Cquote1.svg

A explosiva descoberta
Ainda me atordoa.
Estou cego e vejo.
Arranco os olhos e vejo

Cquote2.svg
Carlos Drummond de Andrad

24 de out de 2010

O TRABALHO COMO ILUSÃO E COMO PERVERSÃO



"A cada porcaria que sai de minha boca
eu me sinto mais limpo"
Pierre Louys


O desemprego, longe de caracterizar um problema social, bem que poderia ser o sinal ou o signo de que, finalmente, a humanidade caminha para sua emancipação. Mas não.
Os próprios desempregados, manipulados e mobilizados pela TV, pelos sindicatos, associações e igrejas de todos os matizes, vão às ruas exigir nada mais nada menos do que trabalho.Queremos trabalhar! Queremos trabalhar! Queremos trabalhar!!!Já os que trabalham, quando fazem greve, a intenção não é a conquista do lazer, mas pelo contrário, o fortalecimento dos vínculos com o trabalho e a solidificação das garantias de que estarão empregado por toda a vida. A grande maioria, para o cúmulo da perversidade, faz de tudo para permanecer trabalhando depois de aposentada, dando a impressão de que a própria escravidão se torna vício, de que o ócio sufoca e, por fim, de que o homem faz de tudo para e com os outros, no intuíto de jamais deparar-se consigo mesmo.De tudo o que os gregos e romanos escreveram, o que mais fascina ee exatamente o desprezo que (de Heródoto e Xenofonte a Cícero) sempre expressaram pelo trabalho. Para eles, que haviam herdado esse saber dos egípcios, o trabalho pertencia por direito aos escravos, e eram tão rigorosos nisto, que não permitiam nem mesmo que suas mulheres costurassem, ou tecessem, para não rebaixar sua nobreza.Em sua famosa «Econômica», Xenofonte afirma que as pessoas que se entregam ao trabalho manual não alcançam jamais uma boa posição. Cícero, por sua vez, falando dos ofícios, estava seguro que aqueles que ofereciam seu trabalho em troca de dinheiro, além de vender a si mesmos como prostitutos, se colocavam na categoria de párias.Na obra de Marx (desse homem que recopilou sutilmente os gregos), o que existe de mais interessante é o projeto que prevê não apenas uma melhora nas relações de trabalho (como entendem os sectários), mas a possibilidade de suprimi-lo e de riscá-lo definitivamente do mapa. Nesse particular, por mais ridículo que pareça, é necessário reconhecer que grande parte da elite e da aristocracia mundial, sem necessariamente ser marxista, parece ter conquistado o que ele tanto teorizava, já que não trabalha há mil anos. Já que não fazem nada. Conquistaram o direito de permanecer afastados do trabalho para sempre, mergulahos no ócio, na preguiça, nas banheiras e nas pilhas de dólares. Quando fazem alguma coisa, é mais para exercer o poder ou para desatrofiar a memória. Investem em relojoarias, em lojinhas, em clínicas, em criações de vacas, em garimpos, em frotas de caminhões, em bazares, jóias, fábricas, fazendas, imóveis e outras porcarias que o populacho necessita. Investem sem sair de suas mansões e ficam de longe computando os dividendos, privatizando os mais variados bens do planeta, jogando baralho e vivenciando na prática, o marxismo utópico. Para esses barões do ócio, as duas instituições que na contemporaneidade são o símbolo máximo de toda filosofia greco-romana se chamam: Bolsa de valores e Club Mediterrané.Oito, sete, seis, cinco horas da manhã!


O mundo proletário acorda o mais cedo possível para ligar as turbinas de sua servidão, preso e iludido pelos antigos dogmas e pelo antigo moralismo de que só o trabalho enobrece e dignifica. Mas enobrece como, se a própria nobreza nunca trabalhou? Dignifica como, se na imensidão da turba trabalhadora só se pode perceber humilhação e escravismo?É imensamente doloroso passar pelos fundos das construções, lá pelas três horas da tarde, na hora em que o sol derrete o cérebro, e ver a dedicação e o martírio desses homens que dão suas vidas em troca de uns grãos de arroz e da promessa falsa de que o trabalho eleva.

No Conjunto Nacional, apesar do tipo dos trabalhadores ser outro, o drama é o mesmo: chefetes, subalternos, autônomos e outros gêneros de escravos , com roupas de mórmons, que correm em alta velocidade, que desfilam de lá para cá como se fossem donos de alguma coisa ou como se o planeta estivesse em chamas. As calças suadas no traseiro, olheiras de abatimento e uma falsa serenidade na fala enquanto lá na calçada, um carro forte espera, para transportar ao banco os lucros do dia...Nos ministérios o tédio e a solidão tornam a jornada de oito horas ainda mais vil. O relógio, o calendário, a folha de ponto, a cumplicidade com os governos de turno que, de tão tenebrosos, nem sequer permanecem na história... E a tudo isto se costuma chamar trabalho. Os ônibus chegam de longe trazendo homens e mulheres sonolentos que exibem um crachá no peito e que entram monotonamente nos prédios, em filas, marchando, como se estivessem a caminho do matadouro, e que vão consagrar seu tempo e sua vida na edificação de um mundo absurdo que não lhes diz respeito em nada...E é impressionante observar que praticamente todas as sociedades ditas modernas, padecem desse mal. Do mal de trabalhar e de fazer trabalhar.

Hoje são oito horas, mas ontem chegaram a ser vinte. As correntes foram substituídas pelos relógios e a náusea trabalhista pela ilusão ingênua de que o trabalho, além de tudo é também um truque terapêutico.Para isto, lógico, existem os sociólogos, os psicólogos, os administradores e os vigias que garantem o condicionamento e a ordem, para que o teatro produtivo não se degenere em «vagabundagem».
No lugar da paixão a produção.

E depois, por mais sutil que seja seu funcionamento, a ordem repressiva tem no trabalho e nas regras que o regulamentam o melhor de seus instrumentos. Para quem aceita servil o peso das 44 horas semanais, alguém sem rosto e sem identidade lhe concederá um título de cidadania. Aos outros, aos que, pela razão que for, descambarem para a preguiça e para o ócio, a mesma entidade se apressará em sufocá-los.Ah, o trabalho, o suor e a fadiga!

No campo de Concentração Nazi de Theresienstadt, na Bohème, os prisioneiros podiam ler: Le travail c¹est la liberté.

Mentira. Quem trabalha o faz sempre para um patrão, seja ele pessoa física ou jurídica. Num extremo o antigo opressor feudal, no outro o santo Estado moderno. Apesar dos disfarces, o discurso é o mesmo.

Entre os antigos regimes com campos de trabalho forçado e os governos neo-liberais da atualidade não há nada que seja verdadeiramente diferente. Confúcio, Nero, Mao-Tsé-Tung, Kennedy, a Encíclica Papal, o Fugimore e o Fernando Henrique, todos são sal de um mesmo saco, continuadores da mesma política e da mesma idiossincracia escravocrata. Para todos eles, de Poncio Pilatos a Strossner, o trabalho entra no cotidiano da existência invariavelmente como uma necessidade primordial. Mas todo mundo percebe que por debaixo de suas idéias e de seus discursos diplomáticos subjace sempre e sempre tanto a neurose da produção como a apologia da fadiga,Na essência, o trabalhador, por mais bronco que seja, intui que nada é mais abjeto e mais vil do que o trabalho... mas, estranhamente, permanece nele e em sua jaula, como se estivesse perdido num transe hipnótico. Precisa comer! E esta compulsão pela comida faz do estômago o precursor de todas as escravidões. É por isso que a passagem dos alimentos, da natureza para os armazéns, foi o golpe definitico contra todas as possibilidades de autogestão.

E assim, século após século o inferno do trabalho não cessa, fazendo com que o circo da honradez laboral permaneça intacto, mesmo quando os sujeitos já não possuem mais nem sequer um nome, onde o tempo é tudo e onde cada um só vale pelos músculos que tem. Como não existem mais parâmetros éticos, ficam reduzidos a tolos alienados e cansados que sentem-se extremamente felizes com os sábados e com os domingos, quando podem, finalmente, repousar e esconder-se de um mundo que, sempre que pode, os degusta e os cospe...

Daí a importância de lembrar ­entre uma jornada e outra-, que o trabalho é a raíz de um mundo desenraizado; o crack do povo e o espírito capitalista de uma época decapitada, cujo paradoxo mais cínico é a tentativa de enriquecer toda a humanidade pauperizando todos os seus elementos.

Texto de: Ezio Flavio Bazzo

(Publicado em 1996, no jornal Fogo Cerrado, Brasília DF)

22 de out de 2010

Lapso

Imagem: Portinari (Retirantes)

“A era que virá há de nos mostrar o caos por detrás da lei.”
J. A. WHEELER


A MAIOR CONTRIBUIÇÃO de conhecimento do século XX foi o conhecimento dos limites do conhecimento. A maior certeza que nos foi dada é a da indestrutibilidade das incertezas, não somente na ação, mas também no conhecimento. “Um único ponto quase certo no naufrágio (das antigas certezas absolutas): o ponto de interrogação”, diz o poeta Salah Stétié.

19 de out de 2010

O que temos agora?


Imagem: Sandy Skoglund


Temos que despertar e viver, no exercício de uma autonomia que todo o passado nos obstaculizou...

Esse tal de Brasil novo!
De novidades tão antigas...


ps.
Coisa estranha de ver é como o ser humano se mostra tão ignorante de suas próprias coisas!

14 de out de 2010

A Teatralidade da Vida Amorosa

imagem: Sophie Delaporte


por Ezio Flavio Bazzo

O que se conhece por «relacionamento aberto» não é em sí nem melhor nem pior do que os relacionamentos tradicionais e monogâmicos, já que a questão fundamental de uma vida amorosa prazeirosa não passa pela forma, mas pelo conteúdo das relações. O que observamos na escuta clínica, é que as pessoas que conseguem relacionar-se bem com seu desejo, com seu corpo e com sua própria sexualidade, têm sempre maiores possibilidades de construir com o outro um relacionamento amoroso satisfatório, seja ele da forma que for.

É importante notar que o que muitas vezes está subjacente em relacionamentos abertos, é a incapacidade de separar-se. Quase sempre são relações que não têm mais nada de «amorosas», onde o casal de amantes transformou-se numa «sociedade»: sócios da casa, dos filhos, do carro, etc., e que acham mais cômodo não desfazer a parceria. Outras vezes, essa necessidade de ter relacionamentos paralelos, está ancorada na incapacidade de um ou outro parceiro (ou dos dois) de desfrutar prazeirosamente da própria sexualidade, ou por frigidez ou por impotência, por disputa sexual entre os parceiros, pela intromissão de fantasîas pré-genitais conflitivas durante o ato, por raiva inconsciente do desejo e do prazer do outro, etc. etc. Já que às vezes, as espectativas ou as exigências sexuais de um dos parceiros com quem se co-habita vão se transformando em formas insuportáveis de controle e de repressão sexual.

Considerando que o gozo feminino, ainda hoje, em pleno ano 2000, é ainda um tabu, e que a maioria absoluta das mulheres ainda não consegue gozar sem sentir-se culpada, degenerada e puta, a nível de discussão, poderia-se perguntar: até onde o «relacionamento aberto», ao invés de uma alternativa ao «casamento tradicional», não é mais um truque do mundo masculino para «remediar» a incompatibilidade amorosa doméstica?

Ezio Flávio Bazzo:
Escritor e Doutor em Psicologia Clínica. Autor de Vagabundo na China , Dymphne: a santa protetora dos loucos ; Ecce Bestia , Blasfematório , A Arte de Cuspir ou A Dialética dos Porcos , entre outros


http://home.yawl.com.br/hp/eziob/obras.html


* Publicado na Revista Classe A, 2000.

13 de out de 2010

[Brasil] Em novembro Porto Alegre será palco de uma feira do livro anarquista



Grupos como a editora Deriva, Imaginário, Imprensa Marginal, Antena Negra, Ação Antisexista, Federação Anarquista Gaúcha, entre outros coletivos e editoras, estarão participando e organizando a 1ª Feira do Livro Anarquista de Porto Alegre, nos dias 5, 6 e 7 de novembro, no Espaço Libertário Moinho Negro, rua Marcilio Dias, 1463. Na programação conversas em torno dos temas como "Anarquismo e Geografia", "Anarcologia e Protopia", "Feminismo e Anarquismo", lançamento de livros, filmes, exposições, oficinas, comida, confraternização...

A programação completa pode vista aqui: http://flapoa.deriva.com.br/

agência de notícias anarquistas-ana


No rio poluído
Uma grande surpresa -
Família de capivara.

Aline Moreira Silva, 14 anos

7 de out de 2010

In flores


Foto: Elisa Lazo de Valdez



Entre panelas
ele chega
pela porta
da cozinha
sussurrando delícia-malícia
entre pratos e panelas

mamãe
do fundo quente
do quarto de costura
diz para colocá-lo em
uma camisa de força

mas eu
entre pratos, pernas e panelas
e visto-lhe
uma camisa de vênus

não vamos nos afundar nas mesmisces estéries dos dicursos teóricos já conhecidos...


Imagem: Sophie Delaporte


A construção social das gerações se concretiza através do estabelecimento de valores morais e expectativas de conduta para cada uma delas, em diferentes etapas da história. Novas relações, por sua vez, determinam novos comportamentos das gerações, num movimento dialético e de retroalimentação permanente. É através dos séculos que nossa sociedade modela-se, logo, asa idéias do cristianismo ditavam a moral e os bons costumes de uma sociedade patriarcal, onde a mulher era considerada um adjetivo do homem.

Haverá sempre possibilidade para uma prática libertadora e realmente educativa, “si la liberdad es la esencia de la naturaleza humana y debe ser la base de todas las relaciones sociales, lógicamente debe estar presente como objetivo fundamental del proceso educativo (Ferrer y Guardia)”.

JUSTIÇA

JUSTIÇA

Agora uma fabulazinha

Me falaram sobre uma floresta distante onde uma história triste aconteceu no tempo em que os pássaros falavam, os urubus bichos altivos mas sem dotes para o canto resolveram mesmo contra a natureza que havia de se tornar grandes cantores.
Abriram escolas e importaram professores, aprenderam


mi

sol

si
Encomendaram diplomas e combinaram provas entre si para escolher quais deles passariam a mandar nos demais a partir daí criaram concursos, inventaram títulos pomposos, cada urubuzinho aprendiz sonhava um dia se tornar um ilustre urubu titular afim de ser chamado por vossa excelência.
Passaram-se décadas arte que a patética harmonia dos urubus maestros foi abalada com a invasão da floresta por canários tagarelas, que faziam coro com periquitos festivos e serenatas com sabiás. Os velhos urubus encrespados entortaram o bico e convocaram canários e periquitos para um rigoroso inquérito:
cade os documentos de seus concursos?
Indagaram, e os pobres passarinhos se olharam assustados... Nunca haviam freqüentado escola de canto pois o canto nascera com eles.
Seu canto era tão natural que nunca se preocuparam em provar que sabiam cantar naturalmente cantavam
Não, não, não assim não pode, cantar sem os documentos devidos é um desrespeito a ordem, bradaram os urubus.
E em um nisoro expulsaram da floresta os inofensivos passarinhos que ousavam cantar sem alvarás...

Moral da história: em terra de urubus diplomados não se ouve os cantos dos sabiás