O dito da vez


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A explosiva descoberta
Ainda me atordoa.
Estou cego e vejo.
Arranco os olhos e vejo

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Carlos Drummond de Andrad

14 de out de 2010

A Teatralidade da Vida Amorosa

imagem: Sophie Delaporte


por Ezio Flavio Bazzo

O que se conhece por «relacionamento aberto» não é em sí nem melhor nem pior do que os relacionamentos tradicionais e monogâmicos, já que a questão fundamental de uma vida amorosa prazeirosa não passa pela forma, mas pelo conteúdo das relações. O que observamos na escuta clínica, é que as pessoas que conseguem relacionar-se bem com seu desejo, com seu corpo e com sua própria sexualidade, têm sempre maiores possibilidades de construir com o outro um relacionamento amoroso satisfatório, seja ele da forma que for.

É importante notar que o que muitas vezes está subjacente em relacionamentos abertos, é a incapacidade de separar-se. Quase sempre são relações que não têm mais nada de «amorosas», onde o casal de amantes transformou-se numa «sociedade»: sócios da casa, dos filhos, do carro, etc., e que acham mais cômodo não desfazer a parceria. Outras vezes, essa necessidade de ter relacionamentos paralelos, está ancorada na incapacidade de um ou outro parceiro (ou dos dois) de desfrutar prazeirosamente da própria sexualidade, ou por frigidez ou por impotência, por disputa sexual entre os parceiros, pela intromissão de fantasîas pré-genitais conflitivas durante o ato, por raiva inconsciente do desejo e do prazer do outro, etc. etc. Já que às vezes, as espectativas ou as exigências sexuais de um dos parceiros com quem se co-habita vão se transformando em formas insuportáveis de controle e de repressão sexual.

Considerando que o gozo feminino, ainda hoje, em pleno ano 2000, é ainda um tabu, e que a maioria absoluta das mulheres ainda não consegue gozar sem sentir-se culpada, degenerada e puta, a nível de discussão, poderia-se perguntar: até onde o «relacionamento aberto», ao invés de uma alternativa ao «casamento tradicional», não é mais um truque do mundo masculino para «remediar» a incompatibilidade amorosa doméstica?

Ezio Flávio Bazzo:
Escritor e Doutor em Psicologia Clínica. Autor de Vagabundo na China , Dymphne: a santa protetora dos loucos ; Ecce Bestia , Blasfematório , A Arte de Cuspir ou A Dialética dos Porcos , entre outros


http://home.yawl.com.br/hp/eziob/obras.html


* Publicado na Revista Classe A, 2000.

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JUSTIÇA

JUSTIÇA

Agora uma fabulazinha

Me falaram sobre uma floresta distante onde uma história triste aconteceu no tempo em que os pássaros falavam, os urubus bichos altivos mas sem dotes para o canto resolveram mesmo contra a natureza que havia de se tornar grandes cantores.
Abriram escolas e importaram professores, aprenderam


mi

sol

si
Encomendaram diplomas e combinaram provas entre si para escolher quais deles passariam a mandar nos demais a partir daí criaram concursos, inventaram títulos pomposos, cada urubuzinho aprendiz sonhava um dia se tornar um ilustre urubu titular afim de ser chamado por vossa excelência.
Passaram-se décadas arte que a patética harmonia dos urubus maestros foi abalada com a invasão da floresta por canários tagarelas, que faziam coro com periquitos festivos e serenatas com sabiás. Os velhos urubus encrespados entortaram o bico e convocaram canários e periquitos para um rigoroso inquérito:
cade os documentos de seus concursos?
Indagaram, e os pobres passarinhos se olharam assustados... Nunca haviam freqüentado escola de canto pois o canto nascera com eles.
Seu canto era tão natural que nunca se preocuparam em provar que sabiam cantar naturalmente cantavam
Não, não, não assim não pode, cantar sem os documentos devidos é um desrespeito a ordem, bradaram os urubus.
E em um nisoro expulsaram da floresta os inofensivos passarinhos que ousavam cantar sem alvarás...

Moral da história: em terra de urubus diplomados não se ouve os cantos dos sabiás