O dito da vez


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A explosiva descoberta
Ainda me atordoa.
Estou cego e vejo.
Arranco os olhos e vejo

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Carlos Drummond de Andrad

9 de fev de 2011

"Para o neoliberalismo a democracia começa no mercado" Edson Passetti


Há algum tempo, os filósofos, principalmente os herdeiros do pensamento de Michel Foucault, discutem a emergência do que chamam "sociedade de controle". O momento atual seria de transição, já que o passado recente se caracterizaria pela "sociedade disciplinar". Um dos intelectuais que pensa esse momento é Edson Passetti é professor na PUC-SP, coordenador do grupo Nu-Sol. É autor, entre outros livros, de Anarquismos e sociedade de controle e edita a revista semestral auto-gestionária VERVE. Nesta entrevista, ele relaciona a idéia de sociedade de controle e disciplinar e o que vemos como democracia. "O neoliberalismo produziu um efeito devastador. Reafirmou que, no capitalismo, a democracia começa pelo mercado, livre do planejamento estatal intervencionista e dos benefícios sociais", diz ele.

ComCiência - Alguns filósofos apontam que estamos em um período de transição entre a chamada sociedade disciplinar e a sociedade de controle. O que caracteriza cada uma delas?

Edson Passetti - A sociedade disciplinar funciona por confinamentos (fábrica, asilos, prisões, escolas, hospitais, partidos políticos, sindicatos, etc). Seu alvo é o corpo de cada pessoa, do qual se espera o máximo de energias econômicas para que reste um mínimo de energias políticas. Trata-se de um investimento em aumento de produtividade e docilidade política, com redução de resistências. A sociedade disciplinar atravessa o capitalismo e o socialismo, ocupa superfícies e profundidades do corpo e do planeta, e inclui e exclui por técnicas de confinamentos. Constitui-se, assim, a era da biopolítica em que se investe num corpo saudável para o Estado.

A sociedade de controle funciona em fluxos, segundo uma economia computo-informacional. Ocupa-se do espaço sideral. O alvo é a inteligência, o trabalho intelectual estimulado a criar e a proteger programas, com superação gradativa do trabalho manual. Nela aparecem o cidadão cosmopolita e as constituições transnacionais. Procura-se apagar a expectativa de resistências pelo incentivo à participação de todos na criação e funcionamento de programas no presente ou para o futuro. Trata-se de uma globalização que se funda no inacabado, na metamorfose e nas interfaces rumo ao infinito. Portanto, apresenta-se como definitiva. Seu alvo não é mais o corpo preparado para a mecânica, mas o planeta e a vida inteligente. É a era da ecopolítica em que o Estado somente se interessa pelo corpo salutar.

Vivemos uma época de transição de uma para a outra.

ComCiência - Nessa sociedade de controle, como pensar a idéia de democracia?


Passeti - A democracia política deixa de ser apenas representativa. Passa a ser participativa e midiática. Os partidos permanecem encenando rituais parlamentares, convocam-se grupos, organizações ou até mesmo o conjunto dos cidadãos, em abstrato, para atuarem e decidirem algumas políticas públicas, recomenda-se tolerância, mas acima de tudo os mídias passam a atuar decisivamente, convocando para a atuação nos fluxos. Acabaram os posicionamentos e contra-posicionamentos da sociedade disciplinar. Tudo passa a ser imediato. Fluxos, inacabados, metamorfoseados e realizando diplomáticas interfaces programáticas se expandem.

Desta maneira, o conjunto povo e massa da sociedade disciplinar cede lugar à multidão, fluxo diverso de práticas de contestação formado por grupos e associações recrutados por dispositivos eletrônicos, como internet e telefones celulares (repare no movimento zapatista, nas manifestações contra o G-8, OMC, a mobilização contra o governo espanhol depois do atentado de 11 de março de 2004, em Madri...). É o reverso da democracia produtivista, e por onde podem passar possíveis contestações radicais. Mas também é importante frisar que a multidão talvez seja a forma da atuação democrática que consolide a própria sociedade de controle. Estamos em trânsito, compreende? É preciso muita disposição, no âmbito das humanidades, para análises e ensaios constantes, livres das amarras das totalizações.

ComCiência - Vem dos EUA a idéia de que não é possível tolerar nenhum sistema que não seja a democracia representativa, referendada em valores como a liberdade de imprensa. Ao mesmo tempo, de lá surgem leis que ameaçam cada vez mais a liberdade de imprensa e os direitos dos cidadãos - como é o caso da prisão de Guantánamo. Como entender essa contradição?


Passetti - A democracia política é a utopia planetária do capitalismo, como salientei anteriormente, que se apresenta capaz de selar a paz perpétua propiciada pelo comércio livre de bens, trânsito livre de trabalhadores, autonomia do indivíduo e unificação internacional do planeta. Isto foi proposto por Immanuel Kant, no final do século XVIII, no apogeu do pensamento contratualista. No limite, este projeto de paz perpétua foi abalado pelos socialistas no século XIX, em especial pela proposta federalista do anarquista Pierre-Joseph Proudhon, mostrando que a democracia é fundamental para se atingir a anarquia, ou regime de mais liberdade, em que cada um se auto-governa, abolindo-se a representação e o poder de governo superior. Eis uma crítica radical e que permanece atual - numa época de globalização, constituição da Europa, unificação de mercados livres -, por problematizar o pluralismo. E o que é o pluralismo? Numa frase, é contemplar as diferenças sem abalar a uniformidade. A multidão, como salientaram Toni Negri e Michael Hardt, atrai o diverso, escapa da uniformidade, incorpora as diferenças radicais. Em lugar do pluralismo democrático da sociedade disciplinar vai aparecendo a participação diversificada. Então, se o comércio continua livre, o trânsito de trabalhadores ainda permanece restrito, apesar de ampliado. A autonomia individual permanece uma utopia que depende da unificação do planeta, e mais de 200 anos depois o projeto de Kant continua se desdobrando.

A liberdade de imprensa faz parte de um fluxo intermitente, que procede da institucionalização da propriedade privada e depois da oposição entre capitalismo e socialismo até o fim da guerra fria. Entretanto, depois de 11 de setembro de 2001, com o ataque terrorista vindo do espaço celestial, em que um objeto de traslado, o avião, se transforma em bomba, a liberdade de imprensa reforça seu vínculo com a legislação penal asseguradora da propriedade privada. Amplia-se a crença no programa de tolerância zero, advindo dos anos 80 e 90, nos Estados Unidos, que visa penalizar mais e com mais rigor os segmentos tidos como perigosos. Guantánamo (localizada em Cuba, país que o governo estadunidense qualifica como lugar de tirania) apenas está incluída no fluxo de internacionalização da tolerância zero e das prisões eletrônicas, e que inclui, também, o Tribunal Penal Internacional. Produz-se, assim, fusões de fluxos de campos de concentração (Cuba e Guantánamo). Soma-se ao Gulag soviético, um ou mais Guantánamo estadunidense. Enfim, fica cada vez mais evidente - como lembravam o libertários Etienne de la Boétie, na França, no século XVI, e Willian Godwin, no final do século XVIII, na Inglaterra -, que Estado é sempre tirania.

A prisão atual encarcera para a morte, com o aval de uma opinião pública que clama por polícia, segurança e punição.

ComCiência - Também nos EUA, aumenta-se o uso de sistemas eletrônicos de aprisionamento, os braceletes e colares que monitoram a posição geográfica de imigrantes ilegais e prisioneiros em liberdade condicional. Cabe afirmar que esses sistemas violam os direitos humanos e são anti-democráticos?


Passetti - Estamos no interior dos fluxos punitivos que exigem segurança com eficiência. Mas ao lado da disseminação de direitos multiculturais e para minorias (negros, crianças, mulheres, homossexuais, índios, deficientes...), combinam-se fluxos (por exemplo: mulheres negras; jovens negros deficientes, etc) que sustentam as políticas de cotas (ditas afirmativas). Temos, então, fluxos combinados de concentração de populações que atuam segundo suas correlatas elites ali recrutadas, educadas e integradas. Esta é apenas uma das evidências das práticas de anulação de resistências, sob a marca dos direitos humanos.
Os braceletes e colares estão ultrapassados. Repousam mais na imaginação midiática. Funcionaram efetivamente no controle de zoonose em certas reservas ecológicas. Hoje em dia estão superados pela inserção subcutânea de chips. Com os humanos, numa época em que se pode rastrear por satélites carros, celulares e computadores portáteis, interessa saber mais a respeito das pesquisas sobre coleta de cromossomos que associam dados sobre comportamentos, levados adiante com prisioneiros estadunidenses.

Se a prisão passa a ser para os verdadeiramente perigosos, outros meios eletrônicos ou não de controle a céu aberto (como as leis de penas alternativas) atuam para punir mais e melhor os demais. Não assistimos a uma redução do encarceramento no planeta. Ao contrário, efetivam-se mais encarceramentos e penalizações. É assim que esta sociedade até agora se vê mais segura, associando democracia com punição ampliada.

A materialidade na sociedade de controle produz vigilâncias pormenorizadas de cada um. Na atualidade isto ocorre pelos cruzamentos de bancos de dados que acumulam senhas, rastreadores por satélites de imagens e sons, programas de segurança que vão do acesso à internet ao uso do computador particular, e até georeferenciamentos, pesquisas com biotecnologia... Formam-se também fluxos de controle sobre cada um e em cada atividade. O panóptico da sociedade disciplinar deixa de ser o espaço arquitetônico para assumir sua inspiração divinizada, alojando-se no espaço celestial. A sociedade de controle atua sobre campos de concentração de pessoas, recursos naturais ou santuários ecológicos. Ela é governada do espaço sideral.

Pretende-se uma prevenção geral contra qualquer crime, contra qualquer possível ato infracional futuro. Não há mais excluídos. Na sociedade de controle só há inclusão. A qualquer instante um fluxo lhe integrará, ainda que seja como potencial criminoso por habitar certas regiões da cidade.

ComCiência - Cresce, na atualidade, o uso de sistemas de vigilância para garantir a segurança. sugere-se que a vigilância constante sobre tudo e todos é a única alternativa para se escapar da violência. Que papel tem o medo na sociedade de controle?

Passetti -
Não há democracia representativa, participativa ou midiática sem medos. Não há Estado sem disseminação do medo. O Estado possui o monopólio das armas para afirmar que há uma luta irremediável na sociedade que dele necessita para manter a paz ainda que provisória. O uso das armas, assim como as instituições de contenção e repressão, mais ou menos abertas, é justificado em nome da defesa da ordem¸ da sociedade, democrática ou não.

O Estado mete medo, julga, aprisiona, castra, silencia e mata. Hoje em dia, o Estado de Direito, como assinala o sociólogo Loïc Wacquant não passa de um Estado Penal que sustenta a prática da educação da criança ao cidadão por meio da interiorização da punição. Surgem as polícias comunitárias e agentes privados de segurança para vigiar e controlar os deslocamentos das pessoas captando e tentando capturar os elementos estranhos, intimamente vinculados à indústria da segurança (eletrônica e sideral).

O controle da violência também depende da mídia. É por ela não só tematizada e combatida. Os mídias estimulam a participação do cidadão diretamente, principalmente na televisão, expressando seu desejo de segurança, polícia e morte. Reafirma-se a lógica do campo de concentração e que engloba, também, o campo de extermínio.

ComCiência - Ao mesmo tempo que os governos democráticos se tornaram maioria na América Latina, encontram-se amarrados em termos de "o que é possível fazer", seja pelo ambiente político internacional, seja por dívidas e pelo mercado mundial. Será possível alguma ação efetiva que não acompanhada por represálias?

Passetti - Há muito tempo não há mais governos nacionais. A sociedade de controle se dinamiza pela utopia da universalidade unificadora e democrática. A cada momento a pessoa está convocada a atuar na materialidade econômica e na discussão pública dos problemas. As salutares inteligências produtivas devem estar ocupadas. A televisão e a internet, portanto, transformaram-se em produtores de verdades. Abalaram os tradicionais intelectuais, as vanguardas, os pesquisadores. Hoje só há interesse por sondagens, em escrita que seja fácil e rápida para comunicar ao leitor que gosta pouco de ler. Não há mais o interesse no intelectual humanista da sociedade disciplinar. Hoje, prepondera o jornalista cultural, não mais o especialista, mas o polivalente como qualquer outro trabalhador intelectual nas empresas deve ser. O fim da separação trabalho manual/trabalho intelectual, também acabou com o intelectual profeta que falava da sociedade futura, utópica e igualitária. Hoje, o intelectual é um mero trabalhador que aconselha, exercendo sua condição sacerdotal, garantindo seu emprego.

Não há uma resposta definitiva, nem sequer norteadora para o futuro na sociedade de controle. Os resistentes ativos tendem a abandonar as utopias e procurar realizá-las, aqui e agora, como heterotopias. Se querer a sociedade igualitária era a realização da autonomia da associação, o que significava também fim da sociedade universal uniformizadora, é preciso, então, deixar a sociedade morrer. Invente fluxos libertários: contra o conformismo, seja intempestivo!

fonte: http://www.comciencia.br/comciencia/

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JUSTIÇA

JUSTIÇA

Agora uma fabulazinha

Me falaram sobre uma floresta distante onde uma história triste aconteceu no tempo em que os pássaros falavam, os urubus bichos altivos mas sem dotes para o canto resolveram mesmo contra a natureza que havia de se tornar grandes cantores.
Abriram escolas e importaram professores, aprenderam


mi

sol

si
Encomendaram diplomas e combinaram provas entre si para escolher quais deles passariam a mandar nos demais a partir daí criaram concursos, inventaram títulos pomposos, cada urubuzinho aprendiz sonhava um dia se tornar um ilustre urubu titular afim de ser chamado por vossa excelência.
Passaram-se décadas arte que a patética harmonia dos urubus maestros foi abalada com a invasão da floresta por canários tagarelas, que faziam coro com periquitos festivos e serenatas com sabiás. Os velhos urubus encrespados entortaram o bico e convocaram canários e periquitos para um rigoroso inquérito:
cade os documentos de seus concursos?
Indagaram, e os pobres passarinhos se olharam assustados... Nunca haviam freqüentado escola de canto pois o canto nascera com eles.
Seu canto era tão natural que nunca se preocuparam em provar que sabiam cantar naturalmente cantavam
Não, não, não assim não pode, cantar sem os documentos devidos é um desrespeito a ordem, bradaram os urubus.
E em um nisoro expulsaram da floresta os inofensivos passarinhos que ousavam cantar sem alvarás...

Moral da história: em terra de urubus diplomados não se ouve os cantos dos sabiás