O dito da vez


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A explosiva descoberta
Ainda me atordoa.
Estou cego e vejo.
Arranco os olhos e vejo

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Carlos Drummond de Andrad

29 de ago de 2011

Verbalize


[...] Porquê reconhecer no capitalismo o último e definitivo modo de produção e no Estado com sua "democracia" representativa a derradeira forma das comunidades se organizarem? Porquê não retomar e aprofundar a tradição libertária, descentralizadora e federalista que persistiu em várias épocas e civilizações?

        A realidade contraditória que estamos vivendo abre novas possibilidades ao renascimento dum pensamento e duma prática libertária que contribua para responder a essas perguntas. Certamente que esta mesma realidade pode forjar novas sujeições e autoritarismos: poderes supranacionais, integrismos religiosos, nacionalismos dementes, violência autofágica, manipulação genética, etc.

          Como Carlos Díaz poderíamos dizer " así que estamos lejos de entonar risuenamente, com el famoso libertario italiano, eso de que ‘anárquico es el mundo, anárquico el pensamiento y caminamos hacia la anarquía’ No. Hay más apoltronamiento y más inercia que espíritu de busqueda y que insatisfacción" .

          Perdida a inocência e o otimismo do século XIX, quando os movimentos sociais e os anarquistas em particular esperavam o amanhã radioso, sabemos hoje que o futuro está em aberto, nenhum movimento irresistível da história será capaz de nos preparar algo melhor daquilo que nós mesmos sejamos capazes de construir a partir de hoje. Se os anarquistas forem capazes de passarem o testemunho de sua história, e afirmarem na prática social seus valores, talvez os movimentos sociais possam reencontrar, nessa radicalidade libertária, um dos referenciais que procuram de forma desnorteada. A imprevisibilidade histórica ou o ceticismo não são obstáculos definitivos ao voluntarismo anarquista. Quando Fanelli o libertário italiano companheiro de Bakunin chegou a Espanha em 1868, sem sequer falar o espanhol, acaso poderia prever que estava contribuindo para a criação da mais importante base do movimento anarquista: o movimento libertário da Península Ibérica?

          Não existe um que fazer para os anarquistas. Existe muitas possibilidades de fazer, traduzindo as diferentes situações e perspectivas em que cada grupo ou indivíduo libertário se encontram, mas que passa antes de tudo por preservar a lucidez crítica, pensar permanentemente a realidade, agir sobre essa mesma realidade, assumir a solidão da resistência em tempos difíceis lutando para criar os laços do espaço comunitário alternativo.

          A práxis libertária contemporânea deverá se traduzir cada vez mais na crítica do Poder, da Política, do Estado e do Capital. Mas também na intervenção construtiva a partir da realidade local, na defesa do municipalismo e da democracia direta que sustentem um amplo federalismo regional e internacional dos Povos. Na criação duma cultura crítica que libere espaços de liberdade, de autonomia e criatividade, mas também de projetos autogestionários de alternativas econômicas e convivenciais.

          Esse é o caminho para quebrar a quietude que a sociedade do espetáculo nos impõe, recusar a condição de espectador impotente e agir, a recusa silenciosa, o discurso, o fanzine, a sabotagem anônima, a revista, a desobediência civil, o livro, a ação radical do sindicalista libertário, as cooperativas autogestionárias, a manifestação anti-militarista dos anarco-punks, as experiências educacionais ou as listas de discussão libertárias dentro das redes de computadores são testemunhos de que tudo pode ainda ser feito.

          E porque não fazê-lo?

          Temos razão para crer que os nossos valores: cooperação, apoio mútuo, solidariedade, liberdade e igualdade correspondem à possibilidade de humanização da história das sociedades.

          Por essa razão o anarquismo mantém toda a sua atualidade, acima de modas e conjunturas, até porque a ética e a rebeldia libertária possuem a dimensão eterna de Prometeu e está umbicalmente ligado com o desejo de realização integral de nossa humanidade. Embora sua concretização subversiva só possa ocorrer dentro do contexto real da história e das sociedades. Sendo esse o maior desafio que se coloca ao projeto social libertário [...]
 (Jorge E. Silva)

Fragmentos do livro "O anarquismo hoje: uma reflexão sobre as alternativas libertárias"

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JUSTIÇA

JUSTIÇA

Agora uma fabulazinha

Me falaram sobre uma floresta distante onde uma história triste aconteceu no tempo em que os pássaros falavam, os urubus bichos altivos mas sem dotes para o canto resolveram mesmo contra a natureza que havia de se tornar grandes cantores.
Abriram escolas e importaram professores, aprenderam


mi

sol

si
Encomendaram diplomas e combinaram provas entre si para escolher quais deles passariam a mandar nos demais a partir daí criaram concursos, inventaram títulos pomposos, cada urubuzinho aprendiz sonhava um dia se tornar um ilustre urubu titular afim de ser chamado por vossa excelência.
Passaram-se décadas arte que a patética harmonia dos urubus maestros foi abalada com a invasão da floresta por canários tagarelas, que faziam coro com periquitos festivos e serenatas com sabiás. Os velhos urubus encrespados entortaram o bico e convocaram canários e periquitos para um rigoroso inquérito:
cade os documentos de seus concursos?
Indagaram, e os pobres passarinhos se olharam assustados... Nunca haviam freqüentado escola de canto pois o canto nascera com eles.
Seu canto era tão natural que nunca se preocuparam em provar que sabiam cantar naturalmente cantavam
Não, não, não assim não pode, cantar sem os documentos devidos é um desrespeito a ordem, bradaram os urubus.
E em um nisoro expulsaram da floresta os inofensivos passarinhos que ousavam cantar sem alvarás...

Moral da história: em terra de urubus diplomados não se ouve os cantos dos sabiás