O dito da vez


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A explosiva descoberta
Ainda me atordoa.
Estou cego e vejo.
Arranco os olhos e vejo

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Carlos Drummond de Andrad

30 de nov de 2011

Alan Moore fala das máscaras de Guy Fawkes


Hoje em dia ver na rua uma máscara de Guy Fawkes é um símbolo da dissidência e da Internet, de novas rebeliões e tecnologia - algo que seu criador Alan Moore provavelmente não imaginava quando criou ‘V for Vendetta’ (V de Vingança). Neste contexto, o The Guardian¹ obteve a opinião do escritor de novelas gráficas, anarquista e mago do caos; opinião imperdível, por tão lúcida:


Suponho que quando estava escrevendo ‘V de Vingança’ pensei do fundo do meu coração: não seria ótimo se essas idéias tivessem impacto? Então, quando você começa a ver que essa fantasia ociosa entra no mundo normal... É curioso. Se sente como um personagem que, criado há 30 anos, escapou de alguma maneira do reino da ficção.


A máscara converte os protestos em performances... cria uma sensação de romance e drama, como em uma ópera. Isto é, manifestar, marchar em protesto, pode ser exigente, muito estressante... muito triste. São coisas que devem ser feitas, mas não significa que sejam extremamente agradáveis, quando na realidade deveriam ser...

Sobre a grande ironia referente à Warner ganhar enormes quantias de dinheiro com a venda de máscaras, Moore diz:


Considero cômica a tentativa da Time Warner de caminhar nesta corda bamba... É embaraçoso ser uma empresa que obtém dinheiro com protestos anticorporativos. Não é nada com o que eles queiram ser relacionados. Mas o fato é que eles não gostam de perder dinheiro: vai contra todos os seus instintos... Acho mais divertido do que irritante.

A internet é uma rede projetada para ser descentralizada, mas não de modo a não ser apagada (como Egito), censurada ou controlada de alguma maneira. Esta idéia essencial é colocada no centro do ‘V de Vingança’, apesar do limitado conhecimento técnico de Moore:

A razão pela qual a cruzada de V contra o Estado acaba por ser bem sucedida é que, em ‘V de Vingança’, o Estado encontra-se sobre uma rede de computador centralizada, em que V é capaz de hackear. Não é uma idéia óbvia em 1981, mas me pareceu interessante para uma história de aventuras. Trinta anos se passaram e você está vivendo-a.

Moore vê o que está acontecendo com o Anonymous na rede e os protestos de rua desde uma perspectiva histórica, instrutiva e, não obstante, seu espírito anarquista, com algum grau de esperança:

Provavelmente seria melhor se as autoridades aceitassem que esta é uma situação nova, que isso é a história acontecendo. A história é algo que acontece em ondas. Geralmente é melhor ir [em harmonia] com essas ondas, não fazer com que volte... Espero que os líderes mundiais entendam isso.

Se Alan Moore não foi o criador de máscara alguma, muito menos da vida e obra de Fawkes o conspirador, certamente soube elaborar um imaginário poderoso, profundo e universal, que perdurará por eras.

[1] http://www.guardian.co.uk/books/2011/nov/27/alan-moore-v-vendetta-mask-protest

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JUSTIÇA

JUSTIÇA

Agora uma fabulazinha

Me falaram sobre uma floresta distante onde uma história triste aconteceu no tempo em que os pássaros falavam, os urubus bichos altivos mas sem dotes para o canto resolveram mesmo contra a natureza que havia de se tornar grandes cantores.
Abriram escolas e importaram professores, aprenderam


mi

sol

si
Encomendaram diplomas e combinaram provas entre si para escolher quais deles passariam a mandar nos demais a partir daí criaram concursos, inventaram títulos pomposos, cada urubuzinho aprendiz sonhava um dia se tornar um ilustre urubu titular afim de ser chamado por vossa excelência.
Passaram-se décadas arte que a patética harmonia dos urubus maestros foi abalada com a invasão da floresta por canários tagarelas, que faziam coro com periquitos festivos e serenatas com sabiás. Os velhos urubus encrespados entortaram o bico e convocaram canários e periquitos para um rigoroso inquérito:
cade os documentos de seus concursos?
Indagaram, e os pobres passarinhos se olharam assustados... Nunca haviam freqüentado escola de canto pois o canto nascera com eles.
Seu canto era tão natural que nunca se preocuparam em provar que sabiam cantar naturalmente cantavam
Não, não, não assim não pode, cantar sem os documentos devidos é um desrespeito a ordem, bradaram os urubus.
E em um nisoro expulsaram da floresta os inofensivos passarinhos que ousavam cantar sem alvarás...

Moral da história: em terra de urubus diplomados não se ouve os cantos dos sabiás