O dito da vez


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A explosiva descoberta
Ainda me atordoa.
Estou cego e vejo.
Arranco os olhos e vejo

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Carlos Drummond de Andrad

21 de nov de 2011

[Espanha] “O espírito de resistência contra os ataques do capital é hoje tão necessário quanto em 36”


[Antonio Altarriba (Zaragoza, 1952) dedicou uma vida inteira a escrever. Em um gênero normalmente associado aos super-heróis, sua novela gráfica El Arte de Volar (A Arte de Voar), feita junto com o cartunista Kim, é uma história emocionante, melancólica e muito real, da guerra civil.]

M. Cobo / Jornal CNT


Pergunta: Por que decidiu escrever a história em primeira pessoa?

Resposta: Comecei referindo-me a meu pai em terceira pessoa. Mas não me senti bem e a história não fluía. Sentia uma grande separação entre meu pai e eu. Arroguei o papel de narrador e ele se converteu em personagem, de alguma forma em um objeto diferente e distante de mim. Então tive a ideia de me tornar em meu pai, de formar com ele uma só pessoa. Quando eu não havia nascido, estava nele como potencial genético. Agora que ele morreu, seu sangue corre em minhas veias. Além disso, assim a história me parecia mais autêntica. A voz que conta a história não fala como meu pai. Mas tão pouco como eu. É uma entidade mista, inserida entre a atualidade dos fatos descritos, os percentuais de ficção que dão realismo e, sem dúvida, a identificação do leitor.

Pergunta: Como tem sido a recepção de “A arte de Voar” na França?

Resposta: O livro foi lançado na França em abril. E está funcionando muito bem. Se não me engano, já vai para a quarta edição. Para mim era muito importante que o livro fosse publicado na França. Uma parte da história acontece lá. E lá vivem muitos dos descendentes daqueles que, como meu pai, abandonaram a Espanha pela guerra civil ou pela repressão franquista. Além disso, queria que os franceses se confrontassem com aquele episódio vergonhoso de sua história, que foi o acolhimento dado a exilados, amontoando-os e deixando-os morrer em verdadeiros campos de concentração. O objetivo parece cumprido.

Pergunta: Outros autores fizeram comics com a guerra civil como protagonista ou pano de fundo: Carlos Giménez e sua saga ‘Paracuellos’, Jorge García com ‘Cuerda de presas’, Ángel de la Calle e sua biografia de Tina Modotti... Tem surgido, depois de fazer ‘A arte de Voar’, mais histórias para contar semelhantes ou paralelas as que seu pai viveu, enquadradas na Guerra Civil ou no pós-guerra?

Resposta: O livro provoca muitas memórias. E uma grande quantidade de leitores me escreve ou vem para as apresentações e me contam sua história ou de sua família. Estou me tornando um repositório de uma memória histórica especialmente esquecida e profundamente dilacerada. É uma autêntica mina de relatos. Não descarto, portanto, voltar ao tema ou período. Mas a escrita deste roteiro era tão absorvente e tão dolorosa que agora quero mudar. Na verdade estou preparando um roteiro fantasioso, colorido e bem-humorado. Veremos mais adiante.

Pergunta: Você vê correlação entre a situação política em que viveu seu pai em 36 e a atual?

Resposta: Bem, tal como vemos, cada vez se assemelham mais. De qualquer forma, passamos por um momento que exige uma visão crítica, fornecendo evidências ostensivas sobre a correlação entre poder e corrupção, que incentiva ataques sistemáticos contra as posições dos trabalhadores e setores desfavorecidos... São outros tempos, outras circunstâncias e outras mentalidades, diferentes da guerra civil. Mas o espírito de resistência, o desmascaramento dos mecanismos de opressão, a solidariedade contra os ataques do capital são tão necessários hoje como então. Há tempos que não deixavam tão expostos os mecanismos injustos em que nossa sociedade se baseia.

Pergunta: Recentemente foi apresentado no Festival de Cinema de São Sebastião o filme de animação Arrugas, baseado no comic homônimo de Paco Roca e que recebeu o Prêmio Nacional de Comic em 2008. Kim e você receberam o prêmio em 2010. Fizeram ofertas para adaptar ‘A arte de Voar’ para outro formato?

Resposta: Sim, estamos recebendo algumas propostas. E uma delas, que seria para fazer um filme de animação, é uma opção muito tentadora. Estamos esperando que se definam mais projetos para tomar uma decisão.


Jornal “CNT” Nº 383 – novembro de 2011

agência de notícias anarquistas-ana



tocar sobre teu corpo

ao silêncio das estrelas

um acorde de guitarra

Lisa Carducci

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JUSTIÇA

JUSTIÇA

Agora uma fabulazinha

Me falaram sobre uma floresta distante onde uma história triste aconteceu no tempo em que os pássaros falavam, os urubus bichos altivos mas sem dotes para o canto resolveram mesmo contra a natureza que havia de se tornar grandes cantores.
Abriram escolas e importaram professores, aprenderam


mi

sol

si
Encomendaram diplomas e combinaram provas entre si para escolher quais deles passariam a mandar nos demais a partir daí criaram concursos, inventaram títulos pomposos, cada urubuzinho aprendiz sonhava um dia se tornar um ilustre urubu titular afim de ser chamado por vossa excelência.
Passaram-se décadas arte que a patética harmonia dos urubus maestros foi abalada com a invasão da floresta por canários tagarelas, que faziam coro com periquitos festivos e serenatas com sabiás. Os velhos urubus encrespados entortaram o bico e convocaram canários e periquitos para um rigoroso inquérito:
cade os documentos de seus concursos?
Indagaram, e os pobres passarinhos se olharam assustados... Nunca haviam freqüentado escola de canto pois o canto nascera com eles.
Seu canto era tão natural que nunca se preocuparam em provar que sabiam cantar naturalmente cantavam
Não, não, não assim não pode, cantar sem os documentos devidos é um desrespeito a ordem, bradaram os urubus.
E em um nisoro expulsaram da floresta os inofensivos passarinhos que ousavam cantar sem alvarás...

Moral da história: em terra de urubus diplomados não se ouve os cantos dos sabiás