O dito da vez


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A explosiva descoberta
Ainda me atordoa.
Estou cego e vejo.
Arranco os olhos e vejo

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Carlos Drummond de Andrad

1 de jan de 2012

A revolução por dentro das palavras





José Mário Branco - Sábado, 6 Outubro, 2007

Já nos aconteceu a todos partilharmos as mesmas idéias com amigos nossos e, no entanto, não haver entendimento entre nós acerca das palavras que usamos para definir e designar essas idéias. Isto deve preocupar-nos, porque “a falar é que a gente se entende”.

Em tempos, um amigo meu, que era revolucionário e comunista, foi destacado para desenvolver a organizar a luta política numa região (Trás-os-Montes) onde, pensavam-se, as pessoas estavam muito dominadas pelas idéias reacionárias dos padres e dos caciques ex-fascistas. Ele foi para a região e, numa tasca de aldeia, pôs-se à conversa com trabalhadores do campo que ali estavam a beber e a conviver. Evitou usar palavras como socialismo, comunismo ou revolução que, pensava ele, podia despertar a desconfiança ou a rejeição. Foi conversando sobre a vida “em geral” e lentamente, à medida que iam estando de acordo sobre as idéias simples (da democracia, da liberdade, da justiça social para acabar com diferenças entre pobres e ricos), ele ia explicando “os nomes dos bois”: isto é o socialismo, aquilo é o comunismo, aqueloutro é a revolução, etc.

No fim dessa conversa “cuidadosa”, um velhote virou-se para ele, e disse: “Essas coisas que nos explica são importantes; eu concordo com elas, concordo que a nossa sociedade devia ser assim… Mas há uma coisa que não entendo… Porque é que, a coisas tão bonitas, você dá nomes tão feios?” Para ele, os “nomes feios” eram as palavras “socialismo”, “comunismo”, “revolução”.
O que os separava não eram as idéias, as convicções, as aspirações para a sociedade, mas sim os “nomes feios dados a coisas bonitas”.

O ativista tem de tentar resolver este problema de comunicação. Mas, infelizmente, explicar as coisas verbalmente não é suficiente. As palavras acima referidas, que para mim correspondem ao interesse profundo das classes proletárias, foram (e continuam a ser) muito deturpadas de duas maneiras: primeiro, pela propaganda dos senhores do sistema, que não querem que haja essas mudanças na sociedade e, segundo, pelos erros e os crimes que foram sendo cometidos em nome dessas idéias.
A luta contra a propaganda do sistema é inevitável, faz parte da luta de classes, e só se pode combater com um contínuo trabalho de esclarecimento e educação política: libertar o espírito crítico das pessoas encontrando palavras comuns para as idéias comuns. A segunda dificuldade depende, no essencial, de sermos capazes de provar aos outros, na prática, que os nossos actos e os nossos métodos de atuação estão de acordo com os grandes princípios que defendemos.

No fundo, os ativistas da revolução não conseguem resultados palpáveis (para transformar a sociedade) sem ir fazendo, no seu íntimo pessoal, aquela revolução a que aspiram para os outros. Porque as palavras não são mais do que uma representação do mundo, material ou subjetivo. A acção (o que fazemos, como o fazemos) é que pode realmente transformar a realidade. O pensamento permite-nos compreender (tentar compreender) a realidade e traçar caminhos para intervir nela. E o discurso, sendo essencial para comunicar com os outros, é o resultado dessas duas coisas: acção e pensamento.

A luta pela democracia tem de ser uma escola de democracia; a luta pelo socialismo tem de ser uma escola de socialismo; a luta pelo comunismo tem de ser uma escola de comunismo; e a luta pela transformação revolucionária da sociedade tem de ser, em si mesma, uma espécie de antecipação dessa sociedade nova por que lutamos.

Enquanto houver, em muitos de nós, contradições visíveis entre estes três aspectos – ação, pensamento e discurso – as pessoas, com toda a razão, desconfiarão das nossas palavras e não se juntarão a nós para mudar a vida.

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JUSTIÇA

JUSTIÇA

Agora uma fabulazinha

Me falaram sobre uma floresta distante onde uma história triste aconteceu no tempo em que os pássaros falavam, os urubus bichos altivos mas sem dotes para o canto resolveram mesmo contra a natureza que havia de se tornar grandes cantores.
Abriram escolas e importaram professores, aprenderam


mi

sol

si
Encomendaram diplomas e combinaram provas entre si para escolher quais deles passariam a mandar nos demais a partir daí criaram concursos, inventaram títulos pomposos, cada urubuzinho aprendiz sonhava um dia se tornar um ilustre urubu titular afim de ser chamado por vossa excelência.
Passaram-se décadas arte que a patética harmonia dos urubus maestros foi abalada com a invasão da floresta por canários tagarelas, que faziam coro com periquitos festivos e serenatas com sabiás. Os velhos urubus encrespados entortaram o bico e convocaram canários e periquitos para um rigoroso inquérito:
cade os documentos de seus concursos?
Indagaram, e os pobres passarinhos se olharam assustados... Nunca haviam freqüentado escola de canto pois o canto nascera com eles.
Seu canto era tão natural que nunca se preocuparam em provar que sabiam cantar naturalmente cantavam
Não, não, não assim não pode, cantar sem os documentos devidos é um desrespeito a ordem, bradaram os urubus.
E em um nisoro expulsaram da floresta os inofensivos passarinhos que ousavam cantar sem alvarás...

Moral da história: em terra de urubus diplomados não se ouve os cantos dos sabiás