O dito da vez


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A explosiva descoberta
Ainda me atordoa.
Estou cego e vejo.
Arranco os olhos e vejo

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Carlos Drummond de Andrad

28 de fev de 2012

A minha causa é a causa de nada




Max Stirner

Há tanta coisa a querer ser a minha causa! A começar pela boa causa, depois a causa de Deus, a causa da humanidade, da verdade, da liberdade, do humanitarismo, da justiça; para além disso, a causa do meu povo, do meu príncipe, da minha pátria, e finalmente até a causa do espírito e milhares de outras. A única coisa que não está prevista é que a minha causa seja a causa de mim mesmo! “Que vergonha, a deste egoísmo que só pensa em si!”

Vejamos então como se comportam com a sua causa aqueles para cuja causa se espera que nós trabalhemos, nos sacrifiquemos e nos entusiasmemos.

Vós, que sabeis dizer tanta coisa profunda sobre Deus e durante milênios haveis “sondado os enigmas da divindade” e lhes perscrutastes o âmago, vós sabereis decerto dizer-nos como é que o próprio Deus trata a “causa de Deus”, que nós estamos destinados a servir. E de fato vós não fazeis mistério nenhum do modo como o Senhor se comporta. Qual é então a sua causa? Terá ele, como de nós se espera, feito de uma causa estranha, da causa da verdade e do amor, a sua própria causa? A vós, este mal-entendido causa-vos indignação, e pretendeis ensinar-nos que a causa de Deus é sem dúvida a causa da verdade e do amor, mas que não se pode dizer que esta causa lhe seja estranha, já que Deus é, ele mesmo, a verdade e o amor; a vós, indigna-vos a suposição de que Deus possa, como nós, pobres vermes, apoiar uma causa estranha como se sua fosse. “Como poderia Deus assumir a causa da verdade se ele próprio não fosse a verdade?” Ele só se preocupa com a sua causa, mas como é tudo em tudo, também tudo é sua causa! Nós, porém, não somos tudo em tudo, e a nossa é bem pequena e desprezível: é por isso que temos de “servir uma causa superior“. Do exposto fica claro que Deus só se preocupa com o que é seu, só se ocupa de si mesmo, só pensa em si e só se vê a si — e ai de tudo aquilo que não caia nas suas graças! Ele não serve nenhuma instância superior e só a si se satisfaz. A sua causa é uma causa… puramente egoísta.

E que se passa com a humanidade, cuja causa nos dizem que devemos assumir como nossa? Será a sua causa a de um outro, e serve a humanidade uma causa superior? Não, a humanidade só olha para si própria, a humanidade só quer incentivar o progresso da humanidade, a humanidade tem em si mesma a sua causa. Para que ela se desenvolva, os povos e os indivíduos têm de sofrer por sua causa, e depois de terem realizado aquilo de que a humanidade precisa, ela, por gratidão, atira-os para a estrumeira da história. Não será a causa da humanidade uma causa… puramente egoísta?

Nem preciso de demonstrar a todos aqueles que nos querem impingir a sua causa que o que os move são apenas eles mesmos, e não nós, o seu bem-estar, e não o nosso. Olhem só para o resto do lote. Será que a verdade, a liberdade, o humanitarismo, a justiça desejam outra coisa que não seja o vosso entusiasmo para os servir?

Por isso todos se sentem nas suas sete quintas quando zelosamente lhes são prestadas honras. Veja-se o que se passa com o povo, protegido por dedicados patriotas. Os patriotas tombam em sangrentos combates, ou lutando contra a fome e a miséria. E acham que o povo quer saber disso? O povo “floresce” com o estrume dos seus cadáveres! Os indivíduos morreram “pela grande causa do povo”, o povo despede-se deles com umas palavras de agradecimento e… tira daí proveito. É o que se chama um egoísmo rentável.

Mas vejam só aquele sultão que tão dedicadamente se ocupa dos “seus”. Não será isto o altruísmo em estado puro, não se sacrifica ele hora a hora pelos seus? Exatamente, pelos “seus”. Tenta tu mostrar-te uma vez, não como seu, mas como teu, e vais parar às masmorras por teres fugido ao seu egoísmo. A causa do sultão não é outra senão ele próprio: ele é para si tudo em tudo, é único, e não tolera ninguém que ouse não ser um dos “seus”.

E todos estes brilhantes exemplos não chegam para vos convencer de que o egoísta leva sempre a melhor? Por mim, extraio daqui uma lição: em vez de continuar a servir com altruísmo aqueles grandes egoístas, sou eu próprio o egoísta.

Nada é a causa de Deus e da humanidade, nada a não ser eles próprios. Do mesmo modo, Eu sou a minha causa, eu que, como Deus, sou o nada de tudo o resto, eu que sou o meu tudo, eu que sou o único.

Se Deus e a humanidade, como vós assegurais, têm em si mesmos substância suficiente para serem, em si, tudo em tudo, então eu sinto que a mim me faltará muito menos, e que não terei de me lamentar pela minha “vacuidade”. O nada que eu sou não o é no sentido da vacuidade, mas antes o nada criador, o nada a partir do qual eu próprio, como criador, tudo crio.

Por isso: nada de causas que não sejam única e exclusivamente a minha causa! Vocês dirão que a minha causa deveria, então, ao menos ser a “boa causa”. Qual bom, qual mau! Eu próprio sou a minha causa, e eu não sou nem bom nem mau. Nem uma nem outra coisa fazem para mim qualquer sentido.

O divino é a causa de Deus, o humano a causa “do homem”. A minha causa não é nem o divino nem o humano, não é o verdadeiro, o bom, o justo, o livre, etc., mas exclusivamente o que é meu. E esta não é uma causa universal, mas sim… única, tal como eu.

Para mim, nada está acima de mim!


A minha causa é a causa de nada: “Ich hab’ mein Sach’ auf nichts gestellt”, literalmente “Fundei a minha causa sobre nada”, é a primeira linha do poema de Goethe intitulado Vanitas! Vanitatum vanitas!, de 1806.

tradução: João Barrento
fonte: O único e a sua propriedade
Via Ateus.net

22 de fev de 2012

Um pé de que? Tv Futura

Neste programa "Um pé de quê?", exibido no Canal Futura em 19/11/2008, Regina Casé conta a história da criminalização da maconha.



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17 de fev de 2012

[EUA] Entrevista com Will Potter, autor do livro “Green is the new red”‏


[Will Potter, jornalista estadunidense, é o autor de “Green Is The New Red” (Verde é o Novo Vermelho), leitura essencial para todas as pessoas interessadas nos recentes casos de perseguição e criminalização que ativistas ambientalistas e animalistas estão sofrendo nos Estados Unidos com base em interesses corporativos.]

Pergunta > Por favor, apresente-se e apresente também seu livro, “Green Is The New Red”.

Resposta < Olá a todos. Sou um jornalista indepentende de Washington, DC. Meu trabalho tem sido editado em publicações como Los Angeles Times, Mother Jones e National Public Radio. Centro meus artigos e entrevistas em como os ativistas políticos estão sendo rotulados como “terroristas” por parte das empresas e do governo dos Estados Unidos. “Green Is The New Red” enfoca como ativistas de direitos animais e ativistas ambientais tornaram-se a “ameaça número um do terrorismo doméstico” pelo FBI. Meu livro está escrito de forma narrativa, contando a história de vários membros da Frente de Libertação da Terra, do Stop Huntingdon Animal Cruelty e outros grupos, ao mesmo tempo que investiga como as corporações fabricaram a idéia de “eco-terrorismo”.

Pergunta > Quando falamos de AETA¹, de Green Scare²... Podemos dizer que eles atingiram seu objetivo? Quero dizer, notou-se que nos Estados Unidos o trabalho dos ativistas pelos animais e pela terra diminuiu desde que começaram essas estratégias repressivas?

Resposta < Esta pergunta é muito difícil de responder, porque os movimentos sociais, por sua própria natureza, mudam constantemente. No entanto, não podemos negar que essas táticas tem tido um efeito inibidor, o que significa que muitos ativistas pensam duas vezes antes de dizer ou fazer algo, porque estão preocupados em ser estigmatizados como terroristas. Dito isso, tanto o movimento pelos direitos dos animais como o movimento ambiental dos Estados Unidos são vibrantes e estão crescendo. Ressurgiram as ações de desobediência civil não-violentas em protestos relativos às mudanças climáticas, e os ativistas dos direitos dos animais estão, muito eficazmente, usando investigações sigilosas.

Pergunta > Suponho que os meios de comunicação têm apoiado esse tipo de repressão. Que importância teve (ou tem) quando criminalizam ativistas? Algum jornal, canal de televisão... mostraram-se de alguma forma críticos com todo esse assunto?

Resposta < Na maioria dos casos, os jornalistas dos Estados Unidos não conseguiram examinar criticamente estas táticas. Eu diria que uma das razões pelas quais o “eco-terrorismo” se tornou uma ameaça deste calibre foi porque os jornalistas convencionais usavam esse termo, sem questionar sua fonte. Nos últimos meses temos visto mais e mais crítica às leis como a AETA, mas no geral não têm recebido muita atenção.

Pergunta > Como você sabe, na Espanha vários ativistas foram acusados de atividades ilegais relacionadas com a libertação animal. Todos estão (ou estiveram) trabalhando em campanhas legais. As comparações com o SHAC 7 ou o caso dos animalistas austríacos é inevitável. Você acha que pode aparecer em outros países, que não seja nos Estados Unidos, leis parecidas à AETA?

Resposta < Totalmente. Espanha, Áustria, Finlândia e em um monte de lugares estão vivendo processos que copiam tais táticas. As campanhas dirigidas por corporações para demonizar o movimento pelos animais e o movimento ambientalista tachando-os de “eco-terroristas” tornaram-se internacionais, nas áreas de aplicação. Diria que este é um exemplo de que essas táticas não são “a repressão do Estado”, como esquerdistas tendem a descrevê-las, e sim como “repressão corporativa”. O Estado pode estar colocando em prática estas táticas, mas apenas porque as corporações procuram proteger seus lucros em todo o mundo.

Pergunta > Quais são, na sua opinião, os “pontos fracos” do movimento para torná-lo vulnerável a ataques repressivos como estes?

Resposta < A estratégia por trás dessas táticas do governo é a fragmentação. Ao falar sobre isso eu acho que ajuda a visualizar os movimentos sociais com componentes “horizontais” e “verticais”.
A intenção é separar esses movimentos horizontalmente, e criar divisões entre eles e, chamemo-as, esquerda mais ampla. Defensores dos direitos dos animais e ambientalistas estão, portanto, sendo representados como extremistas ideológicos que, se não forem detidos, não deixarão que coma carne ou dirija carros ou tenha animais de estimação. Claro que, por si só, já existam tensões entre esses movimentos e a esquerda tradicional, mas os políticos e corporações tentam levá-las ao extremo. Se esses movimentos não são vistos como parte de uma luta social para uma maior justiça, é mais fácil para outros grupos de esquerda ou progressistas se afastarem quando reprimidos.

Da mesma forma, é uma tentativa de fragmentar estes movimentos de forma vertical.  Se diz aos grupos legais que deve condenar os grupos clandestinos, e que se não o fazem também serão tratados como terroristas. Com esta estratégia, matam dois coelhos com uma cajadada só. Por um lado, rompem os laços desses movimentos com os de outros movimentos sociais, e por outro lado, rompem as ligações entre os grupos legais e grupos clandestinos. Ou seja, isolam as suas metas e intensificam a repressão.
Então, para responder sua pergunta mais diretamente, a tática mais eficaz para suprimir esses movimentos tem sido a de confrontar os ativistas, seja pressionando-os a tornarem-se informantes ou pressionando-os a condenar publicamente uns aos outro.

Pergunta > No caso dos presos que decidiram cooperar e delatar outros companheiros, eles receberam realmente sentenças reduzidas ou estão cumprindo sentenças semelhantes aos prisioneiros que optaram em não cooperar? Estão estes prisioneiros (que colaboraram) recebendo algum apoio do movimento?

Resposta < As penas variam de um preso a outro, mas os que cooperaram com o governo receberam sentenças comparáveis aos que não o fizeram. Alguns dos prisioneiros que colaboraram receberam algum apoio de algumas pessoas do movimento, mas a maioria das pessoas mais “radicais” ou de base deste movimento se opõem fortemente a apoiá-los de qualquer forma.

Pergunta > Por favor, recomende as que, para você, seja as melhores fontes de informação sobre a repressão contra ativistas, o Green Scare... (sites, fanzines, livros... seja qual for)

Resposta < Uma boa visão geral de muitas táticas usadas contra ativistas na história dos Estados Unidos é “Beyond Bullets: The Suppression of Dissent in the United States”, de Jules Boykoff. Para obter informações sobre presos, o “Earth Liberation Prisoners Network” disponibiliza uma grande lista de e-mails que informam todas as novidades. 

E, claro, www.GreenIsTheNewRed.com tornou-se uma referência de noticias sobre estes temas. Espero que as pessoas que estejam lendo isto também considerem a opção de ler meu livro, “Green Is The New Red: An Insider’s Account of a Social Movement Under Siege”.

[1] AETA: Siglas de Animal Enterprise Terrorism Act, uma lei federal dos Estados Unidos que dá margem de manobra para o Departamento de Justiça para aumentar a repressão contra ativistas pelos animais.

[2] Green Scare: termo com o qual se denomina as novas estratégias de repressão contra os ambientalistas e ativistas pelos animais. Caracteriza-se pela imposição de longas penas de prisão para os ativistas, a pressão exercida sobre eles a testemunhar contra seus companheiros.




agência de notícias anarquistas-ana



o bambu brota
cresce
e enverga
Coletivojuventude do Hai-Kai

16 de fev de 2012

DitoPoeta’malDITO



Poeta morto
cheio de larvas,
caneca quebrada
na parede da casa
como uma vela – apagou-se!
Achou que iluminava todo corredor...
Enganou-se
e  todas inutilidades que construi
foi-se antes de mim
ilusorios sujeitos e por pouco dinheiro
esquecido
merecido
participo
e me recolho.

O que faço entre a porta e a janela?
como se não pagasse a conta
Vou embora!
km

9 de fev de 2012

A Tunísia revolucionária e anarquista


Pergunta > Você pode se apresentar?

Resposta < Eu me chamo Azyz A., tenho 28 anos, ativista tunisiano, semi-escritor e engenheiro de dados.

Pergunta > Como você participou da revolução? O que te parece mais interessante hoje?

Resposta < Desde os 17 anos, eu me encontro apoiando continuamente às lutas sociais, desde que organizei uma greve na escola que me valeu uma prisão e três dias de tortura brutal. Desde então, eu tento estar em todas as greves, selvagens ou planejadas, de trabalhadores ou de estudantes, o que me permitiu construir uma certa experiência e de ter uma vasta rede de conhecimentos. Quando os eventos começaram em Sidi Bouzid (iniciaram-se numa vila de Sidi Bouzid) eu me pus num primeiro momento a divulgar informações pela internet, informações recolhidas de pessoas que eu conheço, muitos deles sindicalistas. O fato de eu ser ativo na internet (eu tinha co-organizado os protestos contra a censura da web com outros blogueiros e cyberativistas, baseados num modelo aproximado de TAZ, o que me concedeu certa notoriedade) permitiu a muitos seguir o curso dos eventos, e me permitiu em um primeiro momento fazer a propaganda anti-governamental, e num segundo momento, organizar as manifestações em Tunis de 25 de dezembro de 2010, e aquela do Puis com Slim Amamou. A gente teve a idéia de forçar idéias nos canais do Anonymous para incitá-los a fazer uma operação especial na Tunísia, o que aconteceu. Detido em 6 de janeiro de 2011 no Ministério do Interior, preso em 10 de janeiro de 2011 por 5 anos, fui liberado por Ben Ali na noite de 13 de janeiro de 2011, e me pus a participar ativamente no apelo da greve geral de 14 de janeiro de 2011 e na manifestação do dia seguinte. Depois, eu mudei o discurso mostrando meu apoio ao movimento libertário e à autogestão como um modo desejável de sociedade. Continuei fazendo o mesmo trabalho. O que me parece mais importante e interessante hoje, é conhecer em detalhes as condições sociais do povo tunisiano, de fazer um trabalho de base com os trabalhadores e marginalizados para começar a aplicar as experiências de autogestão e atacar o capitalismo nascente, de fazer os estudos sócio-políticos, antropológicos e culturais revolucionários, e de pensar novas soluções mais ligadas à realidade. E também me parece importante trabalhar com todos os revolucionários de toda abordagem, trocando idéias, fazendo o mesmo trabalho em todo lugar.

Pergunta > Qual é a situação econômica e política na Tunísia, um ano após a saída de Ben Ali?

Resposta < A situação econômica está fundamentalmente à mesma, um Estado fiscal, semi-feudal no setor da agricultura, as oligarquias nacionais partilhando os grandes setores de artesanato e de empreendimentos (centralizando, porque é claro que toda produção é destinada para vender no exterior), o setor industrial é “arrendado” ou abandonado pelos capitalistas ocidentais. A situação política tende a uma partidocracia que procura uma reformulação da democracia burguesa representativa.

Pergunta > Quais são seus medos com relação à evolução da sociedade e da eleição do governo Nahdha?
 
Resposta < Eu temo justamente que a ignorância se instale de maneira fundamental. A política é aplicada segundo o modelo comportamental dos Hooligans, ao passo que a produção é desconsiderada. O “mendiguismo” que se torna mais e mais a base dos protestos (solução fácil para os partidos que não podem subir ao poder) reconforta o apego ao Estado grande e supremo fornecedor de soluções de vida. É importante implicar as pessoas para que elas recuperem seus direitos no lugar de mendigá-los. Quanto ao governo Nahdha, ele não suscita nada de especial para mim, visto que já todos os partidos são economicamente liberais e fundamentalmente autoritários. O Nahdha, por sua continuação da política de “atuação pela colonização” não tocará aos “privilégios burgueses”, bem ao contrário, os protegerá para ter sua boa aceitação, e dos Estados ocidentais, e das oligarquias monetárias tunisianas.

Pergunta > Ainda há lutas sociais, sindicais na Tunísia? Quais são as perspectivas para um movimento anarquista ou sindical revolucionário?
 
Resposta < As lutas sociais não se findaram, elas estão acontecendo e se repetindo sem um objetivo preciso, para além de si mesmas e a utilização pelos partidos desses protestos para fins políticos, e por outros, para fins de “show de miséria”. Contudo há lugares onde a luta é mais organizada e radical, como em Gafsa ou Manzel Bouazyene, ou Jeneniana. Para estes que são do sindical, o problema é na ruptura orgânica entre “sindicalistas de base” e “sindicalistas oficiais”, ruptura que desapareceu de 8 de janeiro de 2011 até 27 de janeiro de 2011 e que tornou depois. Os sindicalistas de base não têm nenhuma influencia sobre seus superiores, o contrário não é verdade, contudo. Eles vêm fazendo um bom trabalho, mas o movimento obreiro atualmente sonda as pequenas demandas sem tocar a fundo os problemas. Acho que são tempos de se juntar aos operários, de trabalhar com eles, de formar uma rede de sindicalistas de base capazes de levar ao verdadeiro problema da exploração.

Pergunta > Quais são seus projetos militantes?

Resposta < Os principais, efetivamente, são três projetos: um de caráter intelectual que comporta um jornal humorístico antiautoritário, o trabalho com novos jovens músicos para criar uma música contestatória popular (no sentido real do termo), o trabalho de pesquisa e de estudos via um centro de estudos sociais. O segundo projeto é o de participar da instauração da primeira experiência autogestionária baseada em fábricas e nos campos. A terceira é o estabelecimento de um grupo “anti-salaf” que terá como primeira tarefa se manifestar e fazer o “show da existência”, a cada vez que os salafs se manifestarem para fazer os seus shows de existência. Esses são meus projetos para o ano 2012 e acredito que vão avançar.

Tradução > Tio TAZ


agência de notícias anarquistas-ana




Por trás da cortina,
o passarinho não vê
que aguardo o seu canto.
Henrique Pimenta

8 de fev de 2012

6 de fev de 2012

[EUA] Descartada a sentença de morte de Mumia Abu-Jamal: Marc Lamont Hill discute o caso


[Marc Lamont Hill é co-autor, juntamente com Mumia Abu-Jamal, do livro “The Cell – Conversations on Black Life in America”, recentemente lançado nos Estados Unidos. A entrevista a seguir foi realizada logo após os procuradores da Filadélfia desistirem de pedir a pena de morte contra Mumia.]

Pergunta > As pessoas que não apóiam Mumia questionam o fato de que ele diz que outra pessoa é responsável [pela morte do policial Daniel Faulkner], mas nunca nomeou esta pessoa. Além disso, seu irmão estava presente no incidente, mas nunca falou a respeito. O que você acha disso?

Marc Lamont Hill < Não posso especular sobre seu irmão. O que posso dizer é que se a polícia estava ciente de que outra pessoa cometeu o crime, então acusaram Mumia simplesmente porque ele não contou, o que também seria um erro judicial. O ponto aqui é que a polícia sabe que Mumia não o fez. Os investigadores sabem que não possuem evidências apropriadas. Então, independente de quem tenha feito, sabemos que Mumia não o fez. Sabemos que ele não teve um julgamento justo, e sabemos que não teve uma sentença justa. Sabemos tudo isso para ser verdade. Para mim este é o foco critico.

Pergunta > Você falou com ele desde que esta decisão saiu?

Marc < Não tive a chance de falar com ele, devido a agenda telefônica [na prisão]. Falei com ele após cada veredito, e ele estava sempre excitado, sempre feliz, mesmo quando tenta se conter um pouco. Mas o mais importante é que está sempre sóbrio e focado na próxima fase. 

Pergunta > De que forma Mumia vê sua vida como parte de uma grande questão de encarceramento de homens negros?

Marc < Se Mumia fosse branco ou de classe média, ele não estaria encarcerado agora. A grande questão aqui é que o sistema de justiça criminal está quebrado. Em cada nível está quebrado, do nível do aprisionamento, ao envolvimento da polícia em nossas comunidades, à seleção dos jurados, ao sentenciamento.
A razão é que corpos negros masculinos são vistos como perigosos. Mesmo Mumia, com sua graduação, seu mestrado, suas credenciais de jornalista e sete livros, seu corpo continua representando algo perigoso, algo que é inerentemente subversivo. Algo que justifica força letal. Esta é a realidade. Todos nós estamos vivendo assombrados pelo espectro e sombra da morte. Enquanto Mumia está encarando uma circunstância mais imediata, estamos todos lutando contra isso.

Pergunta > Como você vê sua causa em relação à execução de Troy Davis?

Marc < Você não pode pensar em Troy Davis e não pensar em Mumia, e vice-versa. Quando você olha para alguém como Troy Davis, que teve novamente tantas evidências para tantas dúvidas, o Estado ainda assim o executou. Com Mumia, o Estado ainda estava disposto a executar. A diferença entre Mumia e Troy Davis é que nos últimos trinta anos trabalhamos em seu nome. Ele tem uma rede internacional de apoio que inclui celebridades, pessoas ricas e escolarizadas.
Se tivéssemos dedicado este mesmo esforço para Troy Davis, gosto de pensar que teríamos criado conseqüências diferentes. Mas a realidade é que há tantas pessoas no corredor da morte que não deveriam estar lá, que foram erroneamente condenadas, que foram erroneamente executadas. A idéia de que continuamos a executar pessoas sabendo que somos tão falhos é vergonhosa.

Pergunta > Alguns pensam que a combinação da execução de Troy Davis com o caso de Mumia ganhando notoriedade, poderia fazer da pena de morte um assunto nas eleições presidenciais. Isto é possível?

Marc < Não estou convencido de que isso será parte de uma agenda de eleição presidencial, porque francamente tanto Democratas quanto Republicanos falaram muito pouco a respeito. Existem alguns assuntos tão “senso comum” como parte de nossa cultura nacional que não há razões para debatê-los. Não parece existir uma perspectiva diferente entre esquerda e direita sobre a legitimidade da prisão ou da pena de morte. Ninguém quer ser percebido como suave em relação ao crime. Haverá o ato ocasional de clemência, ou o perdão ocasional, porque isso nos permite acreditar que o sistema em si é funcional. Mas isto é na medida em que vai. É triste, mas é verdade.

Pergunta > Você trabalhou em um livro com Mumia antes que ele soubesse que sua sentença de execução seria retirada. Você planeja trabalhar com ele em projetos futuros?

Marc < Estamos ambos comprometidos com o projeto de destruir o regime prisional na América. O trabalho futuro que faremos será focado nisso. Parar este sistema que responde à pobreza e à miséria social com encarceramento e contenção – qualquer projeto intelectual que fizermos no futuro será em torno disso, que inclua todos estacamentos, desde as escolas às prisões.  Isto é grande.

Pergunta > O que as pessoas devem fazer se quiserem se envolver nesta causa?

Marc < A primeira coisa que temos de fazer é libertar Mumia. Esta tem de ser uma de nossas prioridades principais.

Pergunta > Você quer dizer liberdade atual – como liberdade da prisão?

Marc < Sim. Nós o queremos em casa. O ex-arcebispo Desmond Tutu enviou uma carta ontem reivindicando sua libertação imediata. Eu acho que haverá um esforço maior para isso. Existe uma comunidade internacional que continua lutando por sua libertação, porque mais uma vez, ele é inocente. Então, até ele ir para casa, existe trabalho a fazer. FreeMumia.com é uma ótima forma de encontrar informações e se tornar parte desta causa. Nós precisamos nos unir às sociedades prisionais locais, para que possamos passar um tempo nas prisões e nos conectar com prisioneiros, dando apoio a eles.
Temos que desafiar coisas como a Guerra Contra as Drogas, que apenas leva ao encarceramento em massa e mais decadência social. Sou um abolicionista penal, então sou sempre relutante em falar em reforma prisional, mas precisamos lutar por reformas de senso comum como assistência médica. Precisamos lutar pela revogação da reforma que torna mais difícil aos prisioneiros advogar por si mesmos. Uma vez que façamos tudo isso, espero que as coisas sejam muito melhores.
É muito trabalho. A luta continua em frente a nós, mas podemos fazê-la acontecer.

Tradução > Marina Knup

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agência de notícias anarquistas-ana

5 de fev de 2012

4 de fev de 2012

Traçando

Foto: Uwe Krahn
Eu quero, se meu quiser valer.
De tudo um pouco
Da dor ao ardor inebriante da irrealidade dos meus pensamentos;
Com prazer e comportamento tecemos uma estética insolúvel a nossa fome!

Quais prazeres podem ser
neste desfrute de tempo
Barbárie e loucura se mesclam em Poder (aquele máximo)
 
Sinto falta da loucura
dos cabelos embaraçados
das fadigas oportunas,
Daquele velho passado!

Crente de ser;
certamente e não crer
nas mantas de carne
nos mantras da mente
na coisa da alma
na face indecente
vou traçando...
entre a janela da cortina dos meus dedos.
Km

Sujeitos inglórios, não meramente educáveis


O desejo de ação, ocup(ação), seja no bar, na praça, nas ruas das cidades ou no raro livro cheio de traças no canto da estante corroem em algum momento a alma dos seres, sendo seres humanos somos natureza  social e cultural educáveis e educados, o nada fazer nos atormente mais do que conscientemente percebemos.

    Por isso o saber fazer, ou melhor, o saber reconhecer a realidade em que estamos imersos, é sem sombra de duvida descobrir, tornar-se consciente do espanto da vida, ora “existimos!” Enfim descobrimos que há infinitamente novas descobertas, saberes, dores e sabores a serem compartilhados, colocados a tona, explorados e transformados.

    As autonomias surgem, dando seus primeiros passos como um grito entalado na garganta, nem oprimido, nem opressor. A idéia se transforma além da mente abstrata, sou gente, ente, pertencente e agente que esta sendo, ativo-me. Conscientemente inacabados reconhecemos nossa humanidade além dos jargões impostos historicamente, agora podemos nos abrir verdadeiramente a educação...
A educação é um processo feito de gente e por gente. E não é preciso insistir que gente é diversa, é inconclusa (como afirma Paulo Freire). E gente tem história... Tem também um processo de desenvolvimento pessoal, um histórico de aprendizagens e de escolarização: um “Currículum Vitae”, que precisa ser considerado.

A construção social das gerações se concretiza através do estabelecimento de valores morais e expectativas de conduta para cada uma delas, em diferentes etapas da história. Novas relações, por sua vez, determinam novos comportamentos das gerações, num movimento dialético e de retroalimentação permanente. É através dos séculos que nossa sociedade modela-se.

Os anarquistas, os ditos pensadores livres, sempre buscaram por meio da educação, transformar a consciência do povo, daqueles esquecidos nas periferias dos centros de gala, para realizar uma revolução sócio-cultural. Os homens e mulheres que seguiam a concepção anarquista lutaram por uma educação que unisse trabalho manual e intelectual, de modo a formar o homem e a mulher em seus diferentes aspectos: intelectual, moral, político e artístico.

Para Bakunin somente uma educação plena, ou seja, integral poderia possibilitar a construção de um novo tipo de sociedade. Considerava necessário diminuir o abismo entre a educação fornecida ao operariado e aquela desfrutada pelos privilegiados. A educação integral deveria possibilitar o acesso ao conhecimento científico porque
Até agora os burgueses caminharam mais depressa no caminho da civilização do que os proletariados, não porque sua inteligência fosse maior do que destes últimos – hoje se poderia dizer com razão ao contrário – mas porque a organização econômica e política da sociedade foi tal que a ciência não existiu senão para eles e que o proletariado se viu condenado a uma ignorância forçada (BAKUNIN, 1989, p.38)

    É justamente o conhecimento cientifico que segundo a pedagogia libertaria ajudara não apenas os trabalhadores, mas as mulheres em sua trajetória social. Paul Robin defendeu a implantação de uma educação integral para construir um novo tipo de sociedade e possibilitar à formação plena do homem e da mulher, dando-lhe acesso a totalidade dos conhecimentos humanos.  Segundo ele, os homens e mulheres constroem sua visão de mundo a partir do que aprenderam e aprendem.  Considerou que a educação que vigorava na sociedade desigual era imoral e anti-racional, na verdade era uma anti-educação.

O condicionamento que sofremos tem haver não apenas com a hierarquização do ambiente educativo mais também em como se organiza a própria sociedade. Logo, deve-se ressaltar a importância do trabalho coletivo, para que isso ocorra além da vontade dos educadores necessitamos de refletir a criança, o adolescente, quem é este que encontramos hoje nas melhores das hipóteses em nossas salas de aulas?

    Se libertar de conceitos estabelecidos sobre a infância de outras décadas é um dos passos para a mudança de nossa práxis (reflexão – ação – reflexão), salientando que acredito no currículo, neste cotidiano rico como algo inacabado, podemos assim interagir com o que ele estabelece, o recriando de acordo com as necessidades reais de nosso mundo. É preciso afirmar que nem a cultura, nem a educação, como seu organizador básico, podem ser visto como algo neutro. O próprio entendimento de cultura é terreno de disputa, o que impossibilita falar de uma cultura universal e unitária aceita por todos/as a ser transmitida para crianças e adolescentes.

    Sendo assim ter a coragem de nadar contra a corrente, é para raros, com uma vontade criativa que exala para além dos cantos da casa, a cultura vivida transformada em motivação para ação coletiva onde o prédio, a física, se torna meramente ilustrativo aos saberes recriados por uma comunidade que  em conjunto se afirma, seja como cultura independente, seja como um grito de protesto aos obesos democratas que fingem a representatividade, dão o exemplo que querer é poder quando juntos nos tornamos voz.
     A autonomia já floresce, apesar dos espinhos...

     Karina Meireles

JUSTIÇA

JUSTIÇA

Agora uma fabulazinha

Me falaram sobre uma floresta distante onde uma história triste aconteceu no tempo em que os pássaros falavam, os urubus bichos altivos mas sem dotes para o canto resolveram mesmo contra a natureza que havia de se tornar grandes cantores.
Abriram escolas e importaram professores, aprenderam


mi

sol

si
Encomendaram diplomas e combinaram provas entre si para escolher quais deles passariam a mandar nos demais a partir daí criaram concursos, inventaram títulos pomposos, cada urubuzinho aprendiz sonhava um dia se tornar um ilustre urubu titular afim de ser chamado por vossa excelência.
Passaram-se décadas arte que a patética harmonia dos urubus maestros foi abalada com a invasão da floresta por canários tagarelas, que faziam coro com periquitos festivos e serenatas com sabiás. Os velhos urubus encrespados entortaram o bico e convocaram canários e periquitos para um rigoroso inquérito:
cade os documentos de seus concursos?
Indagaram, e os pobres passarinhos se olharam assustados... Nunca haviam freqüentado escola de canto pois o canto nascera com eles.
Seu canto era tão natural que nunca se preocuparam em provar que sabiam cantar naturalmente cantavam
Não, não, não assim não pode, cantar sem os documentos devidos é um desrespeito a ordem, bradaram os urubus.
E em um nisoro expulsaram da floresta os inofensivos passarinhos que ousavam cantar sem alvarás...

Moral da história: em terra de urubus diplomados não se ouve os cantos dos sabiás