O dito da vez


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A explosiva descoberta
Ainda me atordoa.
Estou cego e vejo.
Arranco os olhos e vejo

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Carlos Drummond de Andrad

6 de fev de 2012

[EUA] Descartada a sentença de morte de Mumia Abu-Jamal: Marc Lamont Hill discute o caso


[Marc Lamont Hill é co-autor, juntamente com Mumia Abu-Jamal, do livro “The Cell – Conversations on Black Life in America”, recentemente lançado nos Estados Unidos. A entrevista a seguir foi realizada logo após os procuradores da Filadélfia desistirem de pedir a pena de morte contra Mumia.]

Pergunta > As pessoas que não apóiam Mumia questionam o fato de que ele diz que outra pessoa é responsável [pela morte do policial Daniel Faulkner], mas nunca nomeou esta pessoa. Além disso, seu irmão estava presente no incidente, mas nunca falou a respeito. O que você acha disso?

Marc Lamont Hill < Não posso especular sobre seu irmão. O que posso dizer é que se a polícia estava ciente de que outra pessoa cometeu o crime, então acusaram Mumia simplesmente porque ele não contou, o que também seria um erro judicial. O ponto aqui é que a polícia sabe que Mumia não o fez. Os investigadores sabem que não possuem evidências apropriadas. Então, independente de quem tenha feito, sabemos que Mumia não o fez. Sabemos que ele não teve um julgamento justo, e sabemos que não teve uma sentença justa. Sabemos tudo isso para ser verdade. Para mim este é o foco critico.

Pergunta > Você falou com ele desde que esta decisão saiu?

Marc < Não tive a chance de falar com ele, devido a agenda telefônica [na prisão]. Falei com ele após cada veredito, e ele estava sempre excitado, sempre feliz, mesmo quando tenta se conter um pouco. Mas o mais importante é que está sempre sóbrio e focado na próxima fase. 

Pergunta > De que forma Mumia vê sua vida como parte de uma grande questão de encarceramento de homens negros?

Marc < Se Mumia fosse branco ou de classe média, ele não estaria encarcerado agora. A grande questão aqui é que o sistema de justiça criminal está quebrado. Em cada nível está quebrado, do nível do aprisionamento, ao envolvimento da polícia em nossas comunidades, à seleção dos jurados, ao sentenciamento.
A razão é que corpos negros masculinos são vistos como perigosos. Mesmo Mumia, com sua graduação, seu mestrado, suas credenciais de jornalista e sete livros, seu corpo continua representando algo perigoso, algo que é inerentemente subversivo. Algo que justifica força letal. Esta é a realidade. Todos nós estamos vivendo assombrados pelo espectro e sombra da morte. Enquanto Mumia está encarando uma circunstância mais imediata, estamos todos lutando contra isso.

Pergunta > Como você vê sua causa em relação à execução de Troy Davis?

Marc < Você não pode pensar em Troy Davis e não pensar em Mumia, e vice-versa. Quando você olha para alguém como Troy Davis, que teve novamente tantas evidências para tantas dúvidas, o Estado ainda assim o executou. Com Mumia, o Estado ainda estava disposto a executar. A diferença entre Mumia e Troy Davis é que nos últimos trinta anos trabalhamos em seu nome. Ele tem uma rede internacional de apoio que inclui celebridades, pessoas ricas e escolarizadas.
Se tivéssemos dedicado este mesmo esforço para Troy Davis, gosto de pensar que teríamos criado conseqüências diferentes. Mas a realidade é que há tantas pessoas no corredor da morte que não deveriam estar lá, que foram erroneamente condenadas, que foram erroneamente executadas. A idéia de que continuamos a executar pessoas sabendo que somos tão falhos é vergonhosa.

Pergunta > Alguns pensam que a combinação da execução de Troy Davis com o caso de Mumia ganhando notoriedade, poderia fazer da pena de morte um assunto nas eleições presidenciais. Isto é possível?

Marc < Não estou convencido de que isso será parte de uma agenda de eleição presidencial, porque francamente tanto Democratas quanto Republicanos falaram muito pouco a respeito. Existem alguns assuntos tão “senso comum” como parte de nossa cultura nacional que não há razões para debatê-los. Não parece existir uma perspectiva diferente entre esquerda e direita sobre a legitimidade da prisão ou da pena de morte. Ninguém quer ser percebido como suave em relação ao crime. Haverá o ato ocasional de clemência, ou o perdão ocasional, porque isso nos permite acreditar que o sistema em si é funcional. Mas isto é na medida em que vai. É triste, mas é verdade.

Pergunta > Você trabalhou em um livro com Mumia antes que ele soubesse que sua sentença de execução seria retirada. Você planeja trabalhar com ele em projetos futuros?

Marc < Estamos ambos comprometidos com o projeto de destruir o regime prisional na América. O trabalho futuro que faremos será focado nisso. Parar este sistema que responde à pobreza e à miséria social com encarceramento e contenção – qualquer projeto intelectual que fizermos no futuro será em torno disso, que inclua todos estacamentos, desde as escolas às prisões.  Isto é grande.

Pergunta > O que as pessoas devem fazer se quiserem se envolver nesta causa?

Marc < A primeira coisa que temos de fazer é libertar Mumia. Esta tem de ser uma de nossas prioridades principais.

Pergunta > Você quer dizer liberdade atual – como liberdade da prisão?

Marc < Sim. Nós o queremos em casa. O ex-arcebispo Desmond Tutu enviou uma carta ontem reivindicando sua libertação imediata. Eu acho que haverá um esforço maior para isso. Existe uma comunidade internacional que continua lutando por sua libertação, porque mais uma vez, ele é inocente. Então, até ele ir para casa, existe trabalho a fazer. FreeMumia.com é uma ótima forma de encontrar informações e se tornar parte desta causa. Nós precisamos nos unir às sociedades prisionais locais, para que possamos passar um tempo nas prisões e nos conectar com prisioneiros, dando apoio a eles.
Temos que desafiar coisas como a Guerra Contra as Drogas, que apenas leva ao encarceramento em massa e mais decadência social. Sou um abolicionista penal, então sou sempre relutante em falar em reforma prisional, mas precisamos lutar por reformas de senso comum como assistência médica. Precisamos lutar pela revogação da reforma que torna mais difícil aos prisioneiros advogar por si mesmos. Uma vez que façamos tudo isso, espero que as coisas sejam muito melhores.
É muito trabalho. A luta continua em frente a nós, mas podemos fazê-la acontecer.

Tradução > Marina Knup

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agência de notícias anarquistas-ana

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JUSTIÇA

JUSTIÇA

Agora uma fabulazinha

Me falaram sobre uma floresta distante onde uma história triste aconteceu no tempo em que os pássaros falavam, os urubus bichos altivos mas sem dotes para o canto resolveram mesmo contra a natureza que havia de se tornar grandes cantores.
Abriram escolas e importaram professores, aprenderam


mi

sol

si
Encomendaram diplomas e combinaram provas entre si para escolher quais deles passariam a mandar nos demais a partir daí criaram concursos, inventaram títulos pomposos, cada urubuzinho aprendiz sonhava um dia se tornar um ilustre urubu titular afim de ser chamado por vossa excelência.
Passaram-se décadas arte que a patética harmonia dos urubus maestros foi abalada com a invasão da floresta por canários tagarelas, que faziam coro com periquitos festivos e serenatas com sabiás. Os velhos urubus encrespados entortaram o bico e convocaram canários e periquitos para um rigoroso inquérito:
cade os documentos de seus concursos?
Indagaram, e os pobres passarinhos se olharam assustados... Nunca haviam freqüentado escola de canto pois o canto nascera com eles.
Seu canto era tão natural que nunca se preocuparam em provar que sabiam cantar naturalmente cantavam
Não, não, não assim não pode, cantar sem os documentos devidos é um desrespeito a ordem, bradaram os urubus.
E em um nisoro expulsaram da floresta os inofensivos passarinhos que ousavam cantar sem alvarás...

Moral da história: em terra de urubus diplomados não se ouve os cantos dos sabiás