O dito da vez


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A explosiva descoberta
Ainda me atordoa.
Estou cego e vejo.
Arranco os olhos e vejo

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Carlos Drummond de Andrad

17 de fev de 2012

[EUA] Entrevista com Will Potter, autor do livro “Green is the new red”‏


[Will Potter, jornalista estadunidense, é o autor de “Green Is The New Red” (Verde é o Novo Vermelho), leitura essencial para todas as pessoas interessadas nos recentes casos de perseguição e criminalização que ativistas ambientalistas e animalistas estão sofrendo nos Estados Unidos com base em interesses corporativos.]

Pergunta > Por favor, apresente-se e apresente também seu livro, “Green Is The New Red”.

Resposta < Olá a todos. Sou um jornalista indepentende de Washington, DC. Meu trabalho tem sido editado em publicações como Los Angeles Times, Mother Jones e National Public Radio. Centro meus artigos e entrevistas em como os ativistas políticos estão sendo rotulados como “terroristas” por parte das empresas e do governo dos Estados Unidos. “Green Is The New Red” enfoca como ativistas de direitos animais e ativistas ambientais tornaram-se a “ameaça número um do terrorismo doméstico” pelo FBI. Meu livro está escrito de forma narrativa, contando a história de vários membros da Frente de Libertação da Terra, do Stop Huntingdon Animal Cruelty e outros grupos, ao mesmo tempo que investiga como as corporações fabricaram a idéia de “eco-terrorismo”.

Pergunta > Quando falamos de AETA¹, de Green Scare²... Podemos dizer que eles atingiram seu objetivo? Quero dizer, notou-se que nos Estados Unidos o trabalho dos ativistas pelos animais e pela terra diminuiu desde que começaram essas estratégias repressivas?

Resposta < Esta pergunta é muito difícil de responder, porque os movimentos sociais, por sua própria natureza, mudam constantemente. No entanto, não podemos negar que essas táticas tem tido um efeito inibidor, o que significa que muitos ativistas pensam duas vezes antes de dizer ou fazer algo, porque estão preocupados em ser estigmatizados como terroristas. Dito isso, tanto o movimento pelos direitos dos animais como o movimento ambiental dos Estados Unidos são vibrantes e estão crescendo. Ressurgiram as ações de desobediência civil não-violentas em protestos relativos às mudanças climáticas, e os ativistas dos direitos dos animais estão, muito eficazmente, usando investigações sigilosas.

Pergunta > Suponho que os meios de comunicação têm apoiado esse tipo de repressão. Que importância teve (ou tem) quando criminalizam ativistas? Algum jornal, canal de televisão... mostraram-se de alguma forma críticos com todo esse assunto?

Resposta < Na maioria dos casos, os jornalistas dos Estados Unidos não conseguiram examinar criticamente estas táticas. Eu diria que uma das razões pelas quais o “eco-terrorismo” se tornou uma ameaça deste calibre foi porque os jornalistas convencionais usavam esse termo, sem questionar sua fonte. Nos últimos meses temos visto mais e mais crítica às leis como a AETA, mas no geral não têm recebido muita atenção.

Pergunta > Como você sabe, na Espanha vários ativistas foram acusados de atividades ilegais relacionadas com a libertação animal. Todos estão (ou estiveram) trabalhando em campanhas legais. As comparações com o SHAC 7 ou o caso dos animalistas austríacos é inevitável. Você acha que pode aparecer em outros países, que não seja nos Estados Unidos, leis parecidas à AETA?

Resposta < Totalmente. Espanha, Áustria, Finlândia e em um monte de lugares estão vivendo processos que copiam tais táticas. As campanhas dirigidas por corporações para demonizar o movimento pelos animais e o movimento ambientalista tachando-os de “eco-terroristas” tornaram-se internacionais, nas áreas de aplicação. Diria que este é um exemplo de que essas táticas não são “a repressão do Estado”, como esquerdistas tendem a descrevê-las, e sim como “repressão corporativa”. O Estado pode estar colocando em prática estas táticas, mas apenas porque as corporações procuram proteger seus lucros em todo o mundo.

Pergunta > Quais são, na sua opinião, os “pontos fracos” do movimento para torná-lo vulnerável a ataques repressivos como estes?

Resposta < A estratégia por trás dessas táticas do governo é a fragmentação. Ao falar sobre isso eu acho que ajuda a visualizar os movimentos sociais com componentes “horizontais” e “verticais”.
A intenção é separar esses movimentos horizontalmente, e criar divisões entre eles e, chamemo-as, esquerda mais ampla. Defensores dos direitos dos animais e ambientalistas estão, portanto, sendo representados como extremistas ideológicos que, se não forem detidos, não deixarão que coma carne ou dirija carros ou tenha animais de estimação. Claro que, por si só, já existam tensões entre esses movimentos e a esquerda tradicional, mas os políticos e corporações tentam levá-las ao extremo. Se esses movimentos não são vistos como parte de uma luta social para uma maior justiça, é mais fácil para outros grupos de esquerda ou progressistas se afastarem quando reprimidos.

Da mesma forma, é uma tentativa de fragmentar estes movimentos de forma vertical.  Se diz aos grupos legais que deve condenar os grupos clandestinos, e que se não o fazem também serão tratados como terroristas. Com esta estratégia, matam dois coelhos com uma cajadada só. Por um lado, rompem os laços desses movimentos com os de outros movimentos sociais, e por outro lado, rompem as ligações entre os grupos legais e grupos clandestinos. Ou seja, isolam as suas metas e intensificam a repressão.
Então, para responder sua pergunta mais diretamente, a tática mais eficaz para suprimir esses movimentos tem sido a de confrontar os ativistas, seja pressionando-os a tornarem-se informantes ou pressionando-os a condenar publicamente uns aos outro.

Pergunta > No caso dos presos que decidiram cooperar e delatar outros companheiros, eles receberam realmente sentenças reduzidas ou estão cumprindo sentenças semelhantes aos prisioneiros que optaram em não cooperar? Estão estes prisioneiros (que colaboraram) recebendo algum apoio do movimento?

Resposta < As penas variam de um preso a outro, mas os que cooperaram com o governo receberam sentenças comparáveis aos que não o fizeram. Alguns dos prisioneiros que colaboraram receberam algum apoio de algumas pessoas do movimento, mas a maioria das pessoas mais “radicais” ou de base deste movimento se opõem fortemente a apoiá-los de qualquer forma.

Pergunta > Por favor, recomende as que, para você, seja as melhores fontes de informação sobre a repressão contra ativistas, o Green Scare... (sites, fanzines, livros... seja qual for)

Resposta < Uma boa visão geral de muitas táticas usadas contra ativistas na história dos Estados Unidos é “Beyond Bullets: The Suppression of Dissent in the United States”, de Jules Boykoff. Para obter informações sobre presos, o “Earth Liberation Prisoners Network” disponibiliza uma grande lista de e-mails que informam todas as novidades. 

E, claro, www.GreenIsTheNewRed.com tornou-se uma referência de noticias sobre estes temas. Espero que as pessoas que estejam lendo isto também considerem a opção de ler meu livro, “Green Is The New Red: An Insider’s Account of a Social Movement Under Siege”.

[1] AETA: Siglas de Animal Enterprise Terrorism Act, uma lei federal dos Estados Unidos que dá margem de manobra para o Departamento de Justiça para aumentar a repressão contra ativistas pelos animais.

[2] Green Scare: termo com o qual se denomina as novas estratégias de repressão contra os ambientalistas e ativistas pelos animais. Caracteriza-se pela imposição de longas penas de prisão para os ativistas, a pressão exercida sobre eles a testemunhar contra seus companheiros.




agência de notícias anarquistas-ana



o bambu brota
cresce
e enverga
Coletivojuventude do Hai-Kai

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JUSTIÇA

JUSTIÇA

Agora uma fabulazinha

Me falaram sobre uma floresta distante onde uma história triste aconteceu no tempo em que os pássaros falavam, os urubus bichos altivos mas sem dotes para o canto resolveram mesmo contra a natureza que havia de se tornar grandes cantores.
Abriram escolas e importaram professores, aprenderam


mi

sol

si
Encomendaram diplomas e combinaram provas entre si para escolher quais deles passariam a mandar nos demais a partir daí criaram concursos, inventaram títulos pomposos, cada urubuzinho aprendiz sonhava um dia se tornar um ilustre urubu titular afim de ser chamado por vossa excelência.
Passaram-se décadas arte que a patética harmonia dos urubus maestros foi abalada com a invasão da floresta por canários tagarelas, que faziam coro com periquitos festivos e serenatas com sabiás. Os velhos urubus encrespados entortaram o bico e convocaram canários e periquitos para um rigoroso inquérito:
cade os documentos de seus concursos?
Indagaram, e os pobres passarinhos se olharam assustados... Nunca haviam freqüentado escola de canto pois o canto nascera com eles.
Seu canto era tão natural que nunca se preocuparam em provar que sabiam cantar naturalmente cantavam
Não, não, não assim não pode, cantar sem os documentos devidos é um desrespeito a ordem, bradaram os urubus.
E em um nisoro expulsaram da floresta os inofensivos passarinhos que ousavam cantar sem alvarás...

Moral da história: em terra de urubus diplomados não se ouve os cantos dos sabiás