O dito da vez


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A explosiva descoberta
Ainda me atordoa.
Estou cego e vejo.
Arranco os olhos e vejo

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Carlos Drummond de Andrad

4 de fev de 2012

Sujeitos inglórios, não meramente educáveis


O desejo de ação, ocup(ação), seja no bar, na praça, nas ruas das cidades ou no raro livro cheio de traças no canto da estante corroem em algum momento a alma dos seres, sendo seres humanos somos natureza  social e cultural educáveis e educados, o nada fazer nos atormente mais do que conscientemente percebemos.

    Por isso o saber fazer, ou melhor, o saber reconhecer a realidade em que estamos imersos, é sem sombra de duvida descobrir, tornar-se consciente do espanto da vida, ora “existimos!” Enfim descobrimos que há infinitamente novas descobertas, saberes, dores e sabores a serem compartilhados, colocados a tona, explorados e transformados.

    As autonomias surgem, dando seus primeiros passos como um grito entalado na garganta, nem oprimido, nem opressor. A idéia se transforma além da mente abstrata, sou gente, ente, pertencente e agente que esta sendo, ativo-me. Conscientemente inacabados reconhecemos nossa humanidade além dos jargões impostos historicamente, agora podemos nos abrir verdadeiramente a educação...
A educação é um processo feito de gente e por gente. E não é preciso insistir que gente é diversa, é inconclusa (como afirma Paulo Freire). E gente tem história... Tem também um processo de desenvolvimento pessoal, um histórico de aprendizagens e de escolarização: um “Currículum Vitae”, que precisa ser considerado.

A construção social das gerações se concretiza através do estabelecimento de valores morais e expectativas de conduta para cada uma delas, em diferentes etapas da história. Novas relações, por sua vez, determinam novos comportamentos das gerações, num movimento dialético e de retroalimentação permanente. É através dos séculos que nossa sociedade modela-se.

Os anarquistas, os ditos pensadores livres, sempre buscaram por meio da educação, transformar a consciência do povo, daqueles esquecidos nas periferias dos centros de gala, para realizar uma revolução sócio-cultural. Os homens e mulheres que seguiam a concepção anarquista lutaram por uma educação que unisse trabalho manual e intelectual, de modo a formar o homem e a mulher em seus diferentes aspectos: intelectual, moral, político e artístico.

Para Bakunin somente uma educação plena, ou seja, integral poderia possibilitar a construção de um novo tipo de sociedade. Considerava necessário diminuir o abismo entre a educação fornecida ao operariado e aquela desfrutada pelos privilegiados. A educação integral deveria possibilitar o acesso ao conhecimento científico porque
Até agora os burgueses caminharam mais depressa no caminho da civilização do que os proletariados, não porque sua inteligência fosse maior do que destes últimos – hoje se poderia dizer com razão ao contrário – mas porque a organização econômica e política da sociedade foi tal que a ciência não existiu senão para eles e que o proletariado se viu condenado a uma ignorância forçada (BAKUNIN, 1989, p.38)

    É justamente o conhecimento cientifico que segundo a pedagogia libertaria ajudara não apenas os trabalhadores, mas as mulheres em sua trajetória social. Paul Robin defendeu a implantação de uma educação integral para construir um novo tipo de sociedade e possibilitar à formação plena do homem e da mulher, dando-lhe acesso a totalidade dos conhecimentos humanos.  Segundo ele, os homens e mulheres constroem sua visão de mundo a partir do que aprenderam e aprendem.  Considerou que a educação que vigorava na sociedade desigual era imoral e anti-racional, na verdade era uma anti-educação.

O condicionamento que sofremos tem haver não apenas com a hierarquização do ambiente educativo mais também em como se organiza a própria sociedade. Logo, deve-se ressaltar a importância do trabalho coletivo, para que isso ocorra além da vontade dos educadores necessitamos de refletir a criança, o adolescente, quem é este que encontramos hoje nas melhores das hipóteses em nossas salas de aulas?

    Se libertar de conceitos estabelecidos sobre a infância de outras décadas é um dos passos para a mudança de nossa práxis (reflexão – ação – reflexão), salientando que acredito no currículo, neste cotidiano rico como algo inacabado, podemos assim interagir com o que ele estabelece, o recriando de acordo com as necessidades reais de nosso mundo. É preciso afirmar que nem a cultura, nem a educação, como seu organizador básico, podem ser visto como algo neutro. O próprio entendimento de cultura é terreno de disputa, o que impossibilita falar de uma cultura universal e unitária aceita por todos/as a ser transmitida para crianças e adolescentes.

    Sendo assim ter a coragem de nadar contra a corrente, é para raros, com uma vontade criativa que exala para além dos cantos da casa, a cultura vivida transformada em motivação para ação coletiva onde o prédio, a física, se torna meramente ilustrativo aos saberes recriados por uma comunidade que  em conjunto se afirma, seja como cultura independente, seja como um grito de protesto aos obesos democratas que fingem a representatividade, dão o exemplo que querer é poder quando juntos nos tornamos voz.
     A autonomia já floresce, apesar dos espinhos...

     Karina Meireles

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JUSTIÇA

JUSTIÇA

Agora uma fabulazinha

Me falaram sobre uma floresta distante onde uma história triste aconteceu no tempo em que os pássaros falavam, os urubus bichos altivos mas sem dotes para o canto resolveram mesmo contra a natureza que havia de se tornar grandes cantores.
Abriram escolas e importaram professores, aprenderam


mi

sol

si
Encomendaram diplomas e combinaram provas entre si para escolher quais deles passariam a mandar nos demais a partir daí criaram concursos, inventaram títulos pomposos, cada urubuzinho aprendiz sonhava um dia se tornar um ilustre urubu titular afim de ser chamado por vossa excelência.
Passaram-se décadas arte que a patética harmonia dos urubus maestros foi abalada com a invasão da floresta por canários tagarelas, que faziam coro com periquitos festivos e serenatas com sabiás. Os velhos urubus encrespados entortaram o bico e convocaram canários e periquitos para um rigoroso inquérito:
cade os documentos de seus concursos?
Indagaram, e os pobres passarinhos se olharam assustados... Nunca haviam freqüentado escola de canto pois o canto nascera com eles.
Seu canto era tão natural que nunca se preocuparam em provar que sabiam cantar naturalmente cantavam
Não, não, não assim não pode, cantar sem os documentos devidos é um desrespeito a ordem, bradaram os urubus.
E em um nisoro expulsaram da floresta os inofensivos passarinhos que ousavam cantar sem alvarás...

Moral da história: em terra de urubus diplomados não se ouve os cantos dos sabiás