O dito da vez


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A explosiva descoberta
Ainda me atordoa.
Estou cego e vejo.
Arranco os olhos e vejo

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Carlos Drummond de Andrad

16 de abr de 2012

...

Da tua boca
posso afirmar minha (des)graça
e da minha digo:
não és tu meu remédio
não és de mim contrário.
Com lágrimas penduradas em meus olhos
o que agora surge-me
nunca ter te conhecido
a não ser o avesso do reflexo
de um espelho ...

A lingua trava,
trava-lingua entres dentes de sorrisos cerrados
mas conheço as essencias, recursos
afônico sai um grito de inexistencia

“do nada faz-se ser
da tempestade faz-se a calma
da calma faz-se uma ponte
e nela percorremos nosso caminho”

Antes que eu me perca
vejamos o céu
as estrelas
tente ouvir
Antes  que o nada se faça
pergunte: onde estas?
Antes que venha a morte
assuma as dores e as cores
dos gostos e desabores.

E na sutil diferença,
quando lhe vejo
olho-o todo
sem partes nem posses
eu, personagem da vida irreal.
Sem título, sem posses nem posição, feita de madeira velha sem forma escrevi um poema sem título, falando sobre um outros seres tão reais como  o vinho, não menos saboroso.
km


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JUSTIÇA

JUSTIÇA

Agora uma fabulazinha

Me falaram sobre uma floresta distante onde uma história triste aconteceu no tempo em que os pássaros falavam, os urubus bichos altivos mas sem dotes para o canto resolveram mesmo contra a natureza que havia de se tornar grandes cantores.
Abriram escolas e importaram professores, aprenderam


mi

sol

si
Encomendaram diplomas e combinaram provas entre si para escolher quais deles passariam a mandar nos demais a partir daí criaram concursos, inventaram títulos pomposos, cada urubuzinho aprendiz sonhava um dia se tornar um ilustre urubu titular afim de ser chamado por vossa excelência.
Passaram-se décadas arte que a patética harmonia dos urubus maestros foi abalada com a invasão da floresta por canários tagarelas, que faziam coro com periquitos festivos e serenatas com sabiás. Os velhos urubus encrespados entortaram o bico e convocaram canários e periquitos para um rigoroso inquérito:
cade os documentos de seus concursos?
Indagaram, e os pobres passarinhos se olharam assustados... Nunca haviam freqüentado escola de canto pois o canto nascera com eles.
Seu canto era tão natural que nunca se preocuparam em provar que sabiam cantar naturalmente cantavam
Não, não, não assim não pode, cantar sem os documentos devidos é um desrespeito a ordem, bradaram os urubus.
E em um nisoro expulsaram da floresta os inofensivos passarinhos que ousavam cantar sem alvarás...

Moral da história: em terra de urubus diplomados não se ouve os cantos dos sabiás