O dito da vez


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A explosiva descoberta
Ainda me atordoa.
Estou cego e vejo.
Arranco os olhos e vejo

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Carlos Drummond de Andrad

13 de set de 2012

Moral da ambigüidade


Simone de Beauvoir

(Para a criança) "as invenções humanas - as palavras, os costumes, os valores - são fatos consumados inelutáveis como o céu e as árvores, ou seja, o mundo em que vive é o mundo do sério, já que o específico do espírito de seriedade é considerar os valores como coisas estabelecidas. (... ) o mundo verdadeiro é o dos adultos, onde não lhe é permitido senão respeitar e obedecer. Ingenuamente vítima da "miragem do para-outro, crê no ser dos seus pais, dos seus professores: considera-os como as divindades que estes procuram vãmente ser e cuja aparência se comprazem em imitar diante de olhos ingênuos. As recompensas, as punições, os prêmios, as palavras de elogio ou de censura insuflam na criança a convicção de que existe um bem, um mal, fins em si, como custe um sol e uma lua. (... ) E é nisto que a condição da criança (ainda que possa ser, em outros aspectos, infeliz) é metafisicamente privilegiada: a criança escapa normalmente à angústia da liberdade; pode ser, a depender de sua vontade, indócil, preguiçosa; seus caprichos e suas faltas dizem respeito somente a ela, não pesam sobre a terra, não poderiam perturbar a ordem serena de um mundo que existia antes dela, sem ela, no qual está em segurança por sua própria insignificância; pode fazer impunemente tudo o que lhe agradar, sabe que nada acontecerá por causa disso, tudo já está dado; seus atos não comprometem nada, nem mesmo a si própria.

(...) é muito raro que o mundo infantil se mantenha além da adolescência. Desde a infância, já suas falhas se revelam; no espanto, na revolta, no desrespeito, a criança pouco a pouco se interroga: por que é preciso agir assim? A quem isto é útil? E, se ou agisse de outra forma, que aconteceria? ( ) E quando chega à idade da adolescência, todo seu universo se põe a vacilar, porque percebe as contradições que os adultos opõem uns aos outros, bem como suas hesitações, suas fraquezas. Os homens cessam de lhe aparecer como deuses, e, ao mesmo tempo, o adolescente descobre o caráter humano das realidades que o cercam: a linguagem, os costumes, a moral, os valores têm sua fonte nessas criaturas incertas; chegou o momento em que será chamado a participar também dessa operação; seus atos pesam sobre a terra tanto quanto os dos outros homens, ser-lhe-á preciso escolher decidir. Compreende-se que tenha dificuldade em viver esse momento de sua história e reside nisso, sem dúvida, a causa mais profunda da crise da adolescência: é que o indivíduo deve, enfim, assumir a sua subjetividade. De certa forma, o desabamento do mundo sério é urna libertação. Irresponsável, a criança se sentia também sem defesa em face das potências obscuras que dirigiam o curso das coisas. Mas, qualquer que seja a alegria dessa libertação, não é sem uma grande confusão que o adolescente encontra-se jogado num mundo que não é mais completamente feito, mas a fazer, dono de uma liberdade que nada mais prende, abandonado, injustificado. Em face dessa situação nova, que pode ele fazer? É nesse momento que se decide; se a história, que se pode chamar natural, de um indivíduo - sensualidade, seus complexos afetivos etc. - depende sobretudo de sua infância, é a adolescência que surge como o momento da escolha moral: então, a liberdade se revela e é preciso decidir que atitude tomar diante dela.( ... ) A infelicidade que vem ao homem do fato de ele Ter sido uma criança consiste, pois, em que sua liberdade lhe foi inicialmente ocultada e em que ele guardará toda sua vida a nostalgia do tempo em que ignorava as exigências dela".

5 de set de 2012

Sartre


O homem define-se com base no seu projeto. Este ser material supera continuamente a condição que se encontra já feita, revela e determina sua própria situação, transcendendo-a para se objetar através do trabalho, da ação ou do gesto.. Esta relação imediata para além dos elementos dados e constituídos, com outro que não nós mesmos, esta perene produção de nós mesmos através do trabalho e da práxis é a nossa estrutura própria: nada mais do que uma vontade, não é uma necessidade ou uma paixão, mas as nossas necessidades tais como nossas paixões, ou tal como o mais abstrato dos nossos pensamentos, participam da mesma estrutura: encontram-se sempre fora de si em direção a ... É a isto que nós chamamos existência e que entendemos, de fato, não como uma substância estável que repouse sobre si mesma, mas como um permanente desequilibro uma auto-erradicação de todo o corpo. Como esta tendência para a objetivação assume formas diversas conforme os indivíduos, e como nos projeta através de um campo de possibilidades, das quais realizamos umas mais do que as outras, designamo-la por escolha ou liberdade. 
(Os pensadores. São Paulo, Abril, 1973, fascículo 68, p. 887)

JUSTIÇA

JUSTIÇA

Agora uma fabulazinha

Me falaram sobre uma floresta distante onde uma história triste aconteceu no tempo em que os pássaros falavam, os urubus bichos altivos mas sem dotes para o canto resolveram mesmo contra a natureza que havia de se tornar grandes cantores.
Abriram escolas e importaram professores, aprenderam


mi

sol

si
Encomendaram diplomas e combinaram provas entre si para escolher quais deles passariam a mandar nos demais a partir daí criaram concursos, inventaram títulos pomposos, cada urubuzinho aprendiz sonhava um dia se tornar um ilustre urubu titular afim de ser chamado por vossa excelência.
Passaram-se décadas arte que a patética harmonia dos urubus maestros foi abalada com a invasão da floresta por canários tagarelas, que faziam coro com periquitos festivos e serenatas com sabiás. Os velhos urubus encrespados entortaram o bico e convocaram canários e periquitos para um rigoroso inquérito:
cade os documentos de seus concursos?
Indagaram, e os pobres passarinhos se olharam assustados... Nunca haviam freqüentado escola de canto pois o canto nascera com eles.
Seu canto era tão natural que nunca se preocuparam em provar que sabiam cantar naturalmente cantavam
Não, não, não assim não pode, cantar sem os documentos devidos é um desrespeito a ordem, bradaram os urubus.
E em um nisoro expulsaram da floresta os inofensivos passarinhos que ousavam cantar sem alvarás...

Moral da história: em terra de urubus diplomados não se ouve os cantos dos sabiás