O dito da vez


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A explosiva descoberta
Ainda me atordoa.
Estou cego e vejo.
Arranco os olhos e vejo

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Carlos Drummond de Andrad

4 de abr de 2014

Intervenção antieleitoral anarquista

Aqui não é muito diferente de lá.
Porém, as consciências não são parecidas,
lá, aqui, acolá

o sistema se alimenta... E o tempo, esse, não para!
km



[Grécia] Kamateró, Atenas: Intervenção antieleitoral anarquista.
No sábado, 29 de março de 2014, no bairro Kamateró, nas proximidades de Atenas, realizou-se uma intervenção antieleitoral¹ e antifascista. Aproximadamente 50 antifascistas, antiautoritários e anarquistas do bairro e seus arredores participaram durante umas duas horas nesta intervenção, em vários lugares do bairro, onde estão os negócios, os supermercados, as cafeterias e o mercadinho local. Durante cada uma das ações realizadas, se distribuiu um panfleto antieleitoral e antifascista, abriram faixas com dizeres: “Contra o Estado, os fascistas e os patrões, contra as ilusões eleitorais. Solidariedade – resistência – auto-organização” (foto em anexo) distribuíram panfletos e pintaram slogans. Foi o começo de uma campanha em quatro bairros próximos de Atenas, contra o Estado, o fascismo e as eleições. As ações vão continuar de uma maneira coletiva e auto-organizada, por uns bairros de solidariedade e liberdade, por umas vizinhanças de coexistência e entendimento mútuo, contra a desesperança, o derrotismo, a miséria, o canibalismo, o fascismo.

A seguir publicamos o texto que foi distribuído durante a intervenção:

A partir da submersão no totalitarismo...

Estamos em um período de barbárie generalizada. E isto o sabemos muito bem, nós que vivemos nestes bairros. Somos testemunhas da emergência de um totalitarismo moderno, com suas marcas (sinais) claramente visíveis em cada vez mais grupos sociais, em componentes sociais cada vez mais amplos, em todas as facetas da vida cotidiana. Não é só pelas filas (dos desempregados) nos Institutos de Emprego, a coisa está ainda pior, quando alguém tem “sorte” e consegue trabalho nas “galés” modernas do patronato, que... “por desgraça, o dinheiro não é suficiente”: Na jornada de 4 horas por 250 euros nos supermercados, na jornada de 8 horas por 480 euros, que não podes recusar...

Ao mesmo tempo, em todas as partes estão montando aqueles “pequenos” totalitarismos que reforçam esta mesma normalidade: a partir dos campos de reclusão (concentração) para imigrantes, até as operações vassoura contra as pessoas sem teto e os drogaditos. A partir dos tiros da polícia antidistúrbios nas manifestações, a ocupação policial dos povoados de Calcídica que resistem ao saque de sua terra contra a exploração “de ouro”, até a arrogância dos policiais motorizados contra os “estranhos” e os jovens em todas as ruas e praças de nossos bairros. A partir do novo código penitenciário, até a criação de prisões de segurança máxima para “terroristas”... Os pobres, os diferentes e os rebelados, não só estão obrigados a experimentar um estado de ameaça contínua em todos os níveis, senão que têm que incorporá-lo (assimilá-lo), convertendo-o em um componente (uma parte integral) de sua vida.

E quem mais poderia fazer melhor este trabalho sujo, que a Democracia não pode completar com seus pretextos? As forças de reserva do Estado, que operam como sua muleta, têm sido e sempre serão os fascistas. E em particular, na conjuntura atual, estas forças de reserva são os neonazistas da Aurora Dourada. Segundo parece, contudo, possivelmente se completa uma primeira etapa de negócios entre os fascistas e a Democracia grega. Os fascistas da Aurora Dourada têm cumprido com sua tarefa: conseguiram que os atos diários de violência racista e o discurso racista da extrema-direita, parecessem familiares (às pessoas).

E devido a que, por um lado se enjoaram dos privilégios de que desfrutavam como o longo braço do Estado e, por outro, aumentaram seu espaço político vital em prejuízo dos demais, tiveram que ser temporariamente eliminados, ou tomar a forma de um partido político ultradireitista mais “sério”.  E isto se tornou urgente, sobretudo depois do assassinato de Pavlos Fyssas, quando a raiva social ameaçava a normalidade sistêmica. As perseguições, portanto, contra Aurora Dourada afetam só a pessoas, não opções sistêmicas. Por outro lado, a Democracia grega implementa muito bem as declarações programáticas dos fascistas. Acaso estes últimos não são os que falam da necessidade da presença da Polícia em todos os lugares? Estes não são os que prometiam salários de 18 euros diários aos trabalhadores dos estaleiros de Pérama e aos trabalhadores da zona industrial de Beocia? (se até a Troika e os governantes locais não baixaram dos 20 euros). Não são eles mesmos os que se apresentam como anti-sistêmicos, não são votados por 50% dos policiais, não são apoiados por metade da canalha da Sociedade Anônima sob o nome de “Igreja da Grécia”, e tem votado no Parlamento, concessões aos armadores, a fusão do Banco Rural com o Banco do Pireo (assim que saia beneficiado o mecenas Salas, e que paguemos nós, os de baixo, uns milhões de euros mais)? Não são eles os que enquanto sustentam que declararam guerra aos canais televisivos dos grandes construtores, como Bóbolas, ao mesmo tempo andam de namoro nos canais de outros grandes construtores (por exemplo, Kurís, etc.)? Não são eles que indicam aos empobrecidos e os oprimidos (imigrantes, ciganos, pessoas que resistem...), como inimigos, se o verdadeiro inimigo são os de cima, que determinam nossa vida?

A falsidade de que “todos somos gregos”, que volta a reavivar na consciência social através do Aurora Dourada (junto com todos esses mitos grotescos sobre o sangue comum, a história comum, etc.), não serve a ninguém mais que ao Estado, já que guarda todos os de baixo, presos sob o teto da “Nação”, deixando intacto o sistema de desigualdades e exploração contra nós. Vamos deixar claro para qualquer pessoa imersa na estupidez, que pense em outra coisa: os membros do Aurora Dourada são necessários para a soberania, são uns capangas engravatados, respaldados pelo Estado e os capitalistas poderosos que se encontram por trás deles...

…Até o branqueamento na pia batismal da Democracia...

E tudo isto antes das próximas eleições de maio, nas quais terá lugar mais um festival eleitoral, por que como é bem conhecido “o medo é sucedido pela esperança”. Neste festival, que se branqueiam todos (desde os direitistas e os fascistas, até a esquerda), e que se legalizam na consciência social para continuar cumprindo com seu “dever nacional”. O buscar e fazer ressaltar uma vez mais um “salvador” que nos salve dos males da crise, os discursos eleitorais e as campanhas por um melhor futuro que está por vir, e os dilemas que se nos apresentam diariamente, constituem uma parte integral da perpetuação do sistema existente. Não se equivoquem, todos aqueles que buscam salvadores, logo verão suas esperanças frustradas. O processo eleitoral é o pretexto da mediação, o votar a cada quatro anos, se parece ao despertar instantâneo de uma letargia. Só se tomamos a vida em nossas mãos, sem mediadores e salvadores, sem especialistas e politiqueiros, poderemos falar de uma sociedade diferente, uma sociedade de liberdade, igualdade e solidariedade. A abstenção consciente das eleições constituem uma parte integral da luta contra um mundo de podridão organizado.

Esmagar os fascistas em cada bairro

Abstenção das eleições

Resistência – Auto-organização – Solidariedade

Anarquistas, antiautoritário/as, antifascistas dos bairros de Kamateró, Petrúpoli, Ilion Aguii Anárguiri

O texto em grego:


[1] Um mês e meio antes das eleições municipais e europeias.

Tradução > Sol de Abril

Agência de notícias anarquistas-ana

Todos dormem.
Eu nado na noite que
entra pela janela.

Robert Melançon


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JUSTIÇA

JUSTIÇA

Agora uma fabulazinha

Me falaram sobre uma floresta distante onde uma história triste aconteceu no tempo em que os pássaros falavam, os urubus bichos altivos mas sem dotes para o canto resolveram mesmo contra a natureza que havia de se tornar grandes cantores.
Abriram escolas e importaram professores, aprenderam


mi

sol

si
Encomendaram diplomas e combinaram provas entre si para escolher quais deles passariam a mandar nos demais a partir daí criaram concursos, inventaram títulos pomposos, cada urubuzinho aprendiz sonhava um dia se tornar um ilustre urubu titular afim de ser chamado por vossa excelência.
Passaram-se décadas arte que a patética harmonia dos urubus maestros foi abalada com a invasão da floresta por canários tagarelas, que faziam coro com periquitos festivos e serenatas com sabiás. Os velhos urubus encrespados entortaram o bico e convocaram canários e periquitos para um rigoroso inquérito:
cade os documentos de seus concursos?
Indagaram, e os pobres passarinhos se olharam assustados... Nunca haviam freqüentado escola de canto pois o canto nascera com eles.
Seu canto era tão natural que nunca se preocuparam em provar que sabiam cantar naturalmente cantavam
Não, não, não assim não pode, cantar sem os documentos devidos é um desrespeito a ordem, bradaram os urubus.
E em um nisoro expulsaram da floresta os inofensivos passarinhos que ousavam cantar sem alvarás...

Moral da história: em terra de urubus diplomados não se ouve os cantos dos sabiás